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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Texto de apresentação do meu projeto de dissertação

OS Múltiplos sentidos da ciência:
Do acadêmico ao político, da pesquisa À inovação tecnológica.

A idéia inicial quando começamos a falar dessa temática, é apresentar o sentido de ciência em aberto, disputado pelos campos do conhecimento, entendendo que todos os campos, ao dar um determinado sentido à ciência e não outro, afirmam na verdade, uma perspectiva de sociedade, de vida, de conduta e percepção de mundo.
Vendo esse debate sobre a ótica da teoria de análise de discurso, fundada por Pêcheux, divulgada no Brasil por Orlandi, e com a qual trabalha Gallo, minha orientadora, nós podemos entender melhor esse debate.
O que a AD nos permite compreender, dando seqüência a esse debate é o seguinte:

Segundo Pêcheux, as palavras adquirem seu sentido a partir da posição-sujeito de quem diz, são as relações de força no campo do discurso.
Assim, se o presidente de um instituto de fomento diz que ciência é tecnologia e inovação, esse discurso tem um sentido de legitimação vindo dessa posição-sujeito.
O que acontece é que esse sentido, vindo da posição do sujeito que o produziu, repercute na sociedade através dos meios de divulgação, entre eles a imprensa e internet, e gera outros sentidos, mas tendo esse como fundamento. 
Entender essa disputa é fundamental. Por quê?
Porque a ciência tem de estar a serviço da melhoria da condição de vida das pessoas e da sociedade, não há sentido algum desenvolver ciência sem que essa ciência possa beneficiar a sociedade em que se vive, e as vezes os cientistas esquecem disso.
É como se vivessem o voluntarismo, para o qual, fazer ciência é tudo, o objetivo final. Parafraseando o alemão Eduard Bernstein, quando dizia que o movimento é tudo o objetivo é nada. Isso acontece quando se exerce uma atividade sem analisar o que está em volta.
OBJETIVO
 Qual é o deslocamento?
O que este trabalho espera comprovar, no final da pesquisa, é que existe, na contemporaneidade, um deslocamento do sentido de ciência. Ou do sentido de ciência enquanto atividade do pesquisador acadêmico, se é que se pode dizer assim, enquanto busca pelo conhecimento da verdade, da racionalidade, da compreensão humana e de suas possibilidades de desenvolvimento por meio de procedimentos controlados por teorias e métodos, para um sentido de ciência voltado para a geração de riqueza e do lucro.
Esse outro sentido de riqueza e lucro é associado ao que se tem convencionado chamar de Ciência e Tecnologia - C&T.
Essa sigla, que absorveu o significado de riqueza e poder, de país de primeiro mundo, desenvolvido, associada a palavra inovação, ganha ainda mais força, porque inovação é a palavra da moda, está em todos os cantos dos discursos de desenvolvimento, progresso, geração de riqueza e obviamente, de lucro.
Essa perspectiva do mercado de ganhar mais com menos é que tem norteado o desenvolvimento capitalista desde seu surgimento. Aumentar a produtividade sempre, aumentar o lucro e a mais valia. A tecnologia sempre foi uma ferramenta poderosa nesse sentido.

JUSTIFICATIVA
Felizes os dias em que os engenheiros, os especialistas da informática,  os tecnólogos  eram os inimigos. Hoje são só opositores. Os inimigos estão em outro lugar (Vitor Pequeno).

Hoje em dia fica claro que os tecnólogos não são o inimigo do investimento social e humano, porque fica claro que nós precisamos da tecnologia, como instrumento de trabalho e os tecnólogos precisam de nós como forma de entender o mundo, porque a riqueza gerada por eles não alivia o mundo da miséria crescente.

Pêcheux levantava essa discussão no final da década de 70, numa perspectiva totalmente revolucionária, e prevê que o aconteceria nos dias de hoje com o avanço tecnológico, que a leitura do arquivo mudaria de mãos, saindo dos literados e indo para as mãos dos tecnólogos.
O que isso significa? 
Que quando nós, literados, vemos o mundo, o vemos numa perspectiva totalmente humana e social, e os tecnólogos o vem numa perspectiva funcional. Para nós, ao contrário, são as tecnologias que são instrumentos que nos possibilitam avançar. Nesse sentido a tecnologia tem de servir para aumentar a qualidade de vida do ser humano.
Assim, se a máquina ajuda o homem a produzir mais carros, o que se espera é que o operário tenha mais tempo pra ficar com a família, ter atividades de esporte e lazer, de cultura (Carpe Diem).
Mas o que se têm observado não é isso, mas o contrário disso: quanto mais tecnologia, mais se quer um operário especializado, e que trabalhe mais. Assim, se tem menos funcionários, que são mais qualificados, e que produzindo em associação com a tecnologia, geram mais riqueza para a empresa e seus proprietários, e não para coletividade.
Os tecnólogos, aparentemente não consideram essa problemática, e se esforçam para descobrir novos instrumentos a luz de uma pseudo-neutralidade da ciência, invocadas nos discursos científicos.
Ao fazer a análise do discurso da ciência, percebe-se, através dessa teoria e metodologia, que não existe neutralidade. Existe materialidade histórica e social, produzida pelas formações discursivas que atravessam esse discurso.

REFERENCIAL TEÓRICO
Em Discurso: estrutura ou acontecimento, Pêcheux dá um exemplo, usando a expressão on a gagné (ganhamos).
Quando François Mitterrand  venceu as eleições francesas de 1981, o povo foi às ruas com essa palavra de ordem: on a gagné, típica das torcidas de futebol, isso por que existe um cruzamento de formações discursivas que se sustentam e que dão sentidos que “colam” às palavras, conforme o contexto. As palavras não têm um sentido fixo, estático, fechado. Todas as palavras são polissêmicas e tem seu sentido determinado pelo contexto ou pelos meios em que são produzidas. Por isso interessa tanto a AD as condições de produção em que o discurso é produzido. Essas condições são de âmbito social, histórico e ideológico.

PROBLEMA
Se os meios de produção são importantes, a forma como eles repercutem também o são. Por isso um dos desafios é entender o papel da mídia na construção desses sentidos, assim como o papel da academia, dos laboratórios, centros de pesquisas, congressos, seminários, artigos publicados em revistas especializadas, etc. Procuraremos entender como o político se materializa, também através dos ministérios, CNPq, FINEP, fundações de amparo a pesquisa, institutos, leis e toda a política de Estado.
Em suma, a questão é compreender como essas instâncias científicas são “divulgadas” pelos jornais, revistas, sites e televisão e quais são os efeitos de sentido  dessa construção midiática da ciência, hoje.


2 comentários:

  1. li agora com calma teu trabalho Alexandre!
    gostei muito!
    parabéns camarada! e tomara que te traga novas perguntas,sempre;}

    bjs;*

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obrigado pela sua opinião.