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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Foucault proibido na PUC-SP. Parece mentira, mas não é:


De acordo com a Fundação São Paulo, os estudos do filósofo “não coadunam com os valores da igreja”, o que justificaria a não criação da Cátedra com seu nome na PUC-SP
Por Marcelo Hailer*
Foi com alegria quando, em 2011, recebemos a notícia da parceria entre o Collège de France e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde a instituição brasileira seria a primeira do mundo a receber cópias dos áudios dos 13 cursos que o filósofo Michel Foucault ministrou na instituição francesa. Como contrapartida, uma Cátedra Michel Foucault seria criada. Fato importantíssimo, visto que a PUC-SP seria a primeira instituição do mundo a disponibilizar para pesquisa os cursos do filósofo.
Porém, foi com espanto que recebemos a notícia de que o Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC, recusou a criação da Cátedra Michel Foucault no início deste ano. O fato se tornou público na última reunião do Conselho Universitário (Consun). A censura e intervenção contra a criação da Cátedra foi deliberada pelo Conselho Superior, órgão máximo constituído pela reitora Ana Cintra, bispos da Arquidiocese de São Paulo e o cardeal dom Odilo Scherer.
De acordo com relatos, a censura se deu por que os pensamentos do filósofo “não coadunam com os valores da igreja”. O que espanta é que o Conselho Superior tenha levado mais de 40 anos pra descobrir isso, visto que a PUC-SP é internacionalmente conhecida pelos vários estudos e grupos de pesquisa ligados à sua obra. Portanto, a censura do Conselho se dá por dois motivos: 1) Moral: Michel Foucault era homossexual, crítico da igreja e foi uma das primeiras pessoas públicas a morrer de aids na França; 2) Político: apesar da PUC ser uma referência em estudos foucaultianos, a universidade não tinha um ligamento oficial com o filósofo, a partir do momento em que a Cátedra fosse criada, a instituição passaria a ser visitada por pesquisadores do Brasil e da América Latina por conta dos áudios de seus cursos.
Também não é possível ignorar o momento político em que o Brasil está mergulhado. Desde que os grupos de direita resolveram ir pra rua foi estabelecida uma agenda (que não é nova) de estigmatização não apenas de grupos políticos, mas também de epistemologias historicamente ligadas ao pensamento de esquerda. Ora, e Michel Foucault foi um militante da esquerda francesa, obras como Vigiar e Punir, Anormais e os três volumes da História da Sexualidade são análises críticas aos dispositivos de controle e vigilância das instituições conservadoras e claro, entre elas (principalmente), a Igreja Católica e o seu papel na disseminação de conceitos patologizantes contra os sujeitos “demoníacos” e “perigosos”, entenda-se comunistas, bichas, aborteiras, feministas… O seu pensamento ainda é uma arma política que incomoda, assim como os estudos de Karl Marx são, também, motivo de perseguição das instituições conservadoras.
É dentro deste contexto que devemos compreender a censura à Cátedra Michel Foucault, pois apenas o fator ideológico é que explica uma sandice desta envergadura contra a universidade, que já sofre com evasão de alunos e que vai contra toda a história da PUC-SP, berço de movimentos, pensadores e ativistas políticos do campo progressista do Brasil.
Escândalo internacional
Trata-se de um escândalo e vergonha internacional. Segundo o professor Márcio Alves da Fonseca, em declaração ao jornal O Estado de São Paulo, os áudios, que foram doados em 2011 pelo Collège de France e teve intermediação do Consulado-Geral da França, à época foi pedido que a universidade criasse uma Cátedra Michel Foucault como forma de contrapartida, com a censura do Conselho Superior, existe o risco de que estes áudios tenham que voltar a Paris, o que seria uma perda acadêmica inestimável.
Esta atitude não deixa de ser irônica. É impressionante o poder político e o incômodo que os estudos de Foucault exercem aos setores religiosos e conservadores. E é aí que reside a ironia deste triste fato: que hoje ele, mesmo depois de morto, seja vítima daquilo que mais denunciou a sua vida inteira: os dispositivos disciplinares perpetrados por instituições, tais como as escolas e igrejas, que não tem outra meta senão formatar sujeitos e rasurar o pensamento crítico.
Pode ser que, ao ter em suas mãos o poder de censurar Michel Foucault, o Conselho Superior tenha resolvido se “vingar” do filósofo e ,assim, além de eliminar a Cátedra, acabaram também com a autonomia acadêmica da PUC-SP e a transformaram em símbolo de vitória para aqueles que hoje pedem o retorno de 1964 e a eliminação dos “vermelhos”. Este fato só nos reforça a certeza da importância e atualidade dos estudos de Michel Foucault.
PS: ao término deste texto somos brindados com a informação de que o deputado estadual, Coronel Telhada (PSDB-SP), assumiu a Comissão de Direitos Humanos da ALESP. Tá bom pra você?
*Marcelo Hailer é doutorando em Ciência Sociais (PUC-SP) e membro do Núcleo Inanna de Pesquisa Interdisciplinar de Sexualidades, Gênero e Diferenças (NIP-PUC-SP)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Oração para orientadores que precisam de ajuda divina:

Em resposta à oração para os orientandos...


Nossa Senhora Desatadora de Dissertações e Teses, em ti confiamos para a proteção contra o Caboclo Trava-Orientando. Projeta-me de: enviar e-mail para o aluno e receber uma mensagem dizendo que o e-mail voltou; ligar para o telefone dele e ficar sabendo que o número não existe mais; receber o projeto uma semana antes de mandar para a banca.
Ah, Senhora, livra-me também: da pergunta “mas o que eu devo escrever?”; de escutar “eu não tenho tempo para estudar”; de ver nariz torcido quando peço para acrescentar um subtítulo; de ler textos sem revisão e formatação.
Nossa Senhora, afaste de mim: reclamações por que a banca foi exigente nas qualificações; reclamações por causa dos prazos de entrega dos trabalhos; reclamações da quantidade de leituras; reclamações por ter de cumprir as Atividades Acadêmicas; reclamações dos filhos, cônjuges, serviço, cachorro e papagaio.
Ó Senhora, dai-me a serenidade necessária para ouvir, ouvir e ouvir sem voar no pescoço de orientando; sabedoria para continuar utilizando a linguagem acadêmica mesmo quando a vontade é de...; e paciência para falar mil vezes a mesma coisa por 2 ou 4 anos.
Desatadora, desperte no meu orientando uma enorme vontade de ler os livros indicados. Que ele leia, faça resumos e traga questões para um debate; que ele entenda que as correções são para melhorar o texto e não criticá-lo; que ele queira publicar em coautoria comigo em revista com bom qualis; que ele entregue todos os trabalhos no prazo; que ele não queria convidar para a banca quem não tem relação alguma com sua linha de pesquisa; que ele dê o ar de sua graça, pelo menos, uma vez por mês.
Espero que a Senhora me ajude a encontrar professores para a banca de qualificação que convençam o orientando que seu objeto não cabe na caixa que ele quer enfiar; me ajude também a convencê-lo de não desistir do curso depois disso.
Sei que a senhora vai me dar a bênção de abrir meu e-mail e, como num passe de mágica, ver uma dissertação ou a tese pronta, revisada e formatada, pedindo somente meu aval para mandar para os avaliadores. 
Minha Santa querida, já que eu inventei de ser professor de pós-graduação, dar aulas, ir a congressos, ter oito orientandos de uma só vez, publicar para pontuar na Capes e ainda fazer pós-doc, dá-me força e sabedoria para continuar sendo professor!

Que assim seja como a Capes queira: Amém!!!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Oração Poderosa para Nossa Senhora Destrancadora de Teses


Exu Tranca Tese*


Você está na reta final da sua tese, dissertação ou monografia?
Você sente que existe uma força misteriosa que tira seu ânimo? Faz seu orientador adoecer ou sumir do mapa inexplicavelmente? Seu computador quebra ou é roubado com todos os seus dados e análises?
Lamento ser o portador dessa má notícia, mas… VOCÊ TEM UM EXU TRANCA TESE NA SUA VIDA!!!
Esta é a corrente da Nossa Senhora Destrancadora de Teses. Você deve evocar esta novena toda vez que for vítima de alguma das artimanhas do ‘Exu Tranca Tese’ ou se quiser apenas proteção contra essa entidade!!!
Então, toda vez que sentir necessidade, faça a seguinte oração:

‘Nossa Srª. Destrancadora das Teses, em ti confiamos para a proteção contra o Exu Tranca Tese, nos proteja de: Queimação de pen drive; bibliografia em alemão; visita fora de hora; linha no word que não sobe com ‘del’; fotocopiadora quebrada.

Dá-me: encontros com o orientador no corredor da Universidade e livro emprestado com data de devolução pra 2050.

Ah, senhora, livra-me também das perguntas indiscretas, das dúvidas fora de hora, e das certezas idem. Ajuda-me a lembrar dos nomes dos autores e da pronúncia deles, assim como do modo como se faz notação de revistas.

Nossa Senhora, livre-me de pensamentos acerca de minha tese durante meu sono.

Que eu possa dormir o sono dos justos impunemente, sem que eu tenha que me levantar ou acender a luz para anotar insights invasivos que detonam minha mente quando preciso descansar para mais um dia de batalha! Que tais pensamentos venham na hora certa, quando me sento diante de meu PC e eu não me torne um zumbi.

Ó Senhora, desperta no meu orientador uma enorme vontade de ler minha tese. Que ele a leia com olhos vigilantes, para não deixar passar nenhuma monstruosidade, mas também com olhos piedosos, para me deixar ir enfrentar a banca. E que a banca, Senhora, me dê os apertos que achar necessários, mas que ao final assine a poderosa ata, redenção final dos meus inúmeros pecados.

Nossa Senhora, meu orientador insiste em dizer que a minha tese está, entre aspas, uma m…, mas eu sinto que a Senhora vai me dar um luz bem forte e lançar como de um passe de mágica, artigos que abram meu cérebro tão debilitado por tamanha pressão.

Minha Santa querida, já que eu fiz esta escolha na minha vida e sinto na obrigação de terminar, me dá forças para não matar um!

AMÉM!!!!

E não seja egoísta, repasse esta oração imediatamente a todos os seus amigos e alunos que estão passando pela mesma pressão, senão o Exu não vai te largar e você vai passar o resto da sua vida ‘quase’ terminando sua tese.
 
*por Rose Paixão

domingo, 18 de março de 2012

Seminário Internacional Regulação da Comunicação Pública



Entre os dias 21 e 23 de março, parlamentares, representantes do Poder Executivo, especialistas e pesquisadores vão debater o marco regulatório da comunicação pública no Brasil. 
Em parceria com a Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e pelo Direito à Comunicação com Participação Popular (Frentecom), a Secretaria de Comunicação Social da Câmara vai promover, entre os dias 21 e 23 de março, o Seminário Internacional Regulação da Comunicação Pública. O evento tem como objetivo discutir o aperfeiçoamento da legislação do setor no Brasil, de forma a assegurar a pluralidade de ideias e opiniões nos veículos de comunicação e o pleno exercício do direito à liberdade de expressão.
Entre outros temas, serão debatidos o financiamento e a gestão dos recursos; a regulação dos conteúdos; o controle social e a infraestrutura. Participarão da abertura do seminário o presidente da Câmara, Marco Maia; o presidente do Senado, José Sarney; o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo; e a Ministra da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Helena Chagas.
As propostas discutidas serão consolidadas em um documento oficial, aprovado pelos participantes ao final do evento.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Brasil precisa de um Hugo Chávez

Por Eduardo Guimarães

Para quem se envolveu emocionalmente com o martírio de milhares de famílias atacadas violentamente pelo Estado brasileiro foi duro ser esbofeteado daquele jeito pela Globo e por seu despachante Geraldo Alckmin ontem (1º de fevereiro) à noite.
Dá para imaginar como aquelas famílias massacradas pelo carrasco que dirige São Paulo a serviço de alguns poucos bilionários se sentiram ao vê-lo expor novamente seu conceito de democracia.
Torna-se imperativa, assim, a reflexão de que se há uma coisa que não existe no Brasil é democracia. Como pode ser democrático que milhares de homens, mulheres, crianças e idosos sejam expulsos de suas casas a toque de bombas em benefício exclusivo de uma empresa privada?
O governador de São Paulo poderia ter tido a decência de dizer que o capitalismo é assim mesmo, um sistema econômico em que, como diz o nome, prevalece o capital em detrimento do homem, e que não tem culpa por o Brasil ter escolhido viver sob tal sistema.
Alckmin confunde regime político com sistema econômico. Na democracia, prevalece a vontade da maioria e no capitalismo, da minoria. Na democracia, quem decide é muita gente e no capitalismo são poucos os que tomam decisões que todos têm que acatar.
O Estado usar tropas para tirar milhares de pessoas de suas casas usando violência e depois jogá-las na rua ou em abrigos imundos a fim de beneficiar um grupo de ricaços que não lota um elevador é mero resultado do capitalismo, não da democracia.
Ah, mas foi apenas cumprimento da lei. Nem isso é verdade: havia conflito entre instâncias do Judiciário (estadual e federal). E se esse Judiciário não é capaz de observar que na democracia não pode atender ao interesse de poucos massacrando a muitos, tampouco é democrático.
É a segunda vez, em curto período, que Alckmin associa democracia a ações violentas da Polícia Militar, mesmo que o principal paradigma do regime democrático seja o de substituir a violência pelo diálogo.
Foi uma bofetada na democracia o Jornal Nacional levar ao ar a invenção absurda de que os moradores do Pinheirinho teriam sido obrigados por lideranças a ficarem ali no dia do despejo. Centenas de flagelados depuseram por escrito, assinaram o depoimento e nenhum relatou semelhante coisa.
De um lado, então, há milhares de pessoas com nome, sobrenome e imagem dizendo que não tentaram resistir por força de liderança alguma, mas porque simplesmente não tinham para onde ir; de outro, há uma gravação de alguém sem nome, sem rosto e que pode até ser falsa.
Há, ainda, um homem sem caráter que diz que antes os flagelados viviam em moradias precárias e que agora vivem em moradias dignas e uma emissora que divulga isso sem reparo algum, sem mostrar que agora é que estão vivendo em moradias precárias, para dizer o mínimo.
Quem defenderá este povo? A mídia inventa, mente, distorce, omite e não há um só político de peso (ao qual não se possa negar espaço) para desmascarar uma farsa que não resiste a trinta segundos de contraditório.
O povo brasileiro, que em grande parte vive em condições pouco melhores do que aquela em que viviam os flagelados do Pinheirinho antes de virarem moradores de rua, está indefeso diante da sanha do capitalismo selvagem.
Este país precisa de um líder feito de carne, osso e sangue nas veias e que seja capaz de se indignar ante aquela vergonha, ante aquele crime de lesa-humanidade que foi a nova aula de “democracia” de Geraldo Alckmin. O Brasil precisa mesmo é de um Hugo Chávez.

Assista, abaixo, à “aula de democracia” que Geraldo Alckmin deu em 1º de fevereiro de 2012 na concessão pública que transmite o Jornal Nacional.

Blog da cidadania:

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Texto de apresentação do meu projeto de dissertação

OS Múltiplos sentidos da ciência:
Do acadêmico ao político, da pesquisa À inovação tecnológica.

A idéia inicial quando começamos a falar dessa temática, é apresentar o sentido de ciência em aberto, disputado pelos campos do conhecimento, entendendo que todos os campos, ao dar um determinado sentido à ciência e não outro, afirmam na verdade, uma perspectiva de sociedade, de vida, de conduta e percepção de mundo.
Vendo esse debate sobre a ótica da teoria de análise de discurso, fundada por Pêcheux, divulgada no Brasil por Orlandi, e com a qual trabalha Gallo, minha orientadora, nós podemos entender melhor esse debate.
O que a AD nos permite compreender, dando seqüência a esse debate é o seguinte:

Segundo Pêcheux, as palavras adquirem seu sentido a partir da posição-sujeito de quem diz, são as relações de força no campo do discurso.
Assim, se o presidente de um instituto de fomento diz que ciência é tecnologia e inovação, esse discurso tem um sentido de legitimação vindo dessa posição-sujeito.
O que acontece é que esse sentido, vindo da posição do sujeito que o produziu, repercute na sociedade através dos meios de divulgação, entre eles a imprensa e internet, e gera outros sentidos, mas tendo esse como fundamento. 
Entender essa disputa é fundamental. Por quê?
Porque a ciência tem de estar a serviço da melhoria da condição de vida das pessoas e da sociedade, não há sentido algum desenvolver ciência sem que essa ciência possa beneficiar a sociedade em que se vive, e as vezes os cientistas esquecem disso.
É como se vivessem o voluntarismo, para o qual, fazer ciência é tudo, o objetivo final. Parafraseando o alemão Eduard Bernstein, quando dizia que o movimento é tudo o objetivo é nada. Isso acontece quando se exerce uma atividade sem analisar o que está em volta.
OBJETIVO
 Qual é o deslocamento?
O que este trabalho espera comprovar, no final da pesquisa, é que existe, na contemporaneidade, um deslocamento do sentido de ciência. Ou do sentido de ciência enquanto atividade do pesquisador acadêmico, se é que se pode dizer assim, enquanto busca pelo conhecimento da verdade, da racionalidade, da compreensão humana e de suas possibilidades de desenvolvimento por meio de procedimentos controlados por teorias e métodos, para um sentido de ciência voltado para a geração de riqueza e do lucro.
Esse outro sentido de riqueza e lucro é associado ao que se tem convencionado chamar de Ciência e Tecnologia - C&T.
Essa sigla, que absorveu o significado de riqueza e poder, de país de primeiro mundo, desenvolvido, associada a palavra inovação, ganha ainda mais força, porque inovação é a palavra da moda, está em todos os cantos dos discursos de desenvolvimento, progresso, geração de riqueza e obviamente, de lucro.
Essa perspectiva do mercado de ganhar mais com menos é que tem norteado o desenvolvimento capitalista desde seu surgimento. Aumentar a produtividade sempre, aumentar o lucro e a mais valia. A tecnologia sempre foi uma ferramenta poderosa nesse sentido.

JUSTIFICATIVA
Felizes os dias em que os engenheiros, os especialistas da informática,  os tecnólogos  eram os inimigos. Hoje são só opositores. Os inimigos estão em outro lugar (Vitor Pequeno).

Hoje em dia fica claro que os tecnólogos não são o inimigo do investimento social e humano, porque fica claro que nós precisamos da tecnologia, como instrumento de trabalho e os tecnólogos precisam de nós como forma de entender o mundo, porque a riqueza gerada por eles não alivia o mundo da miséria crescente.

Pêcheux levantava essa discussão no final da década de 70, numa perspectiva totalmente revolucionária, e prevê que o aconteceria nos dias de hoje com o avanço tecnológico, que a leitura do arquivo mudaria de mãos, saindo dos literados e indo para as mãos dos tecnólogos.
O que isso significa? 
Que quando nós, literados, vemos o mundo, o vemos numa perspectiva totalmente humana e social, e os tecnólogos o vem numa perspectiva funcional. Para nós, ao contrário, são as tecnologias que são instrumentos que nos possibilitam avançar. Nesse sentido a tecnologia tem de servir para aumentar a qualidade de vida do ser humano.
Assim, se a máquina ajuda o homem a produzir mais carros, o que se espera é que o operário tenha mais tempo pra ficar com a família, ter atividades de esporte e lazer, de cultura (Carpe Diem).
Mas o que se têm observado não é isso, mas o contrário disso: quanto mais tecnologia, mais se quer um operário especializado, e que trabalhe mais. Assim, se tem menos funcionários, que são mais qualificados, e que produzindo em associação com a tecnologia, geram mais riqueza para a empresa e seus proprietários, e não para coletividade.
Os tecnólogos, aparentemente não consideram essa problemática, e se esforçam para descobrir novos instrumentos a luz de uma pseudo-neutralidade da ciência, invocadas nos discursos científicos.
Ao fazer a análise do discurso da ciência, percebe-se, através dessa teoria e metodologia, que não existe neutralidade. Existe materialidade histórica e social, produzida pelas formações discursivas que atravessam esse discurso.

REFERENCIAL TEÓRICO
Em Discurso: estrutura ou acontecimento, Pêcheux dá um exemplo, usando a expressão on a gagné (ganhamos).
Quando François Mitterrand  venceu as eleições francesas de 1981, o povo foi às ruas com essa palavra de ordem: on a gagné, típica das torcidas de futebol, isso por que existe um cruzamento de formações discursivas que se sustentam e que dão sentidos que “colam” às palavras, conforme o contexto. As palavras não têm um sentido fixo, estático, fechado. Todas as palavras são polissêmicas e tem seu sentido determinado pelo contexto ou pelos meios em que são produzidas. Por isso interessa tanto a AD as condições de produção em que o discurso é produzido. Essas condições são de âmbito social, histórico e ideológico.

PROBLEMA
Se os meios de produção são importantes, a forma como eles repercutem também o são. Por isso um dos desafios é entender o papel da mídia na construção desses sentidos, assim como o papel da academia, dos laboratórios, centros de pesquisas, congressos, seminários, artigos publicados em revistas especializadas, etc. Procuraremos entender como o político se materializa, também através dos ministérios, CNPq, FINEP, fundações de amparo a pesquisa, institutos, leis e toda a política de Estado.
Em suma, a questão é compreender como essas instâncias científicas são “divulgadas” pelos jornais, revistas, sites e televisão e quais são os efeitos de sentido  dessa construção midiática da ciência, hoje.


sábado, 1 de maio de 2010

A MENTE APAGA REGISTROS DUPLICADOS

Por Airton Luiz Mendonça 

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol. 
Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: Nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e, portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. 
Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e 'apagando' as experiências duplicadas. Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente. 
Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo. 
Como acontece? 
Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência). Ou seja, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são apagados de sua noção de passagem do tempo. 
Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos as coisas começam a se repetir - as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, -... Enfim... as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década. Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a... 

ROTINA 
A rotina é essencial para a vida e aperfeiçoa muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos. Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e Marque). 
Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. 
Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes. 
Seja diferente. 
Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos.. . em outras palavras... V-I-V-A. !!! 
Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o... do que a maioria dos livros da vida que existem por aí. 
Cerque-se de amigos. 
Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes. Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é? 
Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

Fonte: Artigo do jornal O Estado de São Paulo