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quinta-feira, 5 de março de 2020

Marcos Nobre: ‘Se não houver acordo entre as forças do campo democrático, Bolsonaro está reeleito’

Por Anna Beatriz Anjos | Fotos: José Cícero da Silva
Fonte: Agência Pública


Marcos Nobre, presidente do Cebrap e professor da Unicamp.

Para presidente do Cebrap, a eleição de Bolsonaro não é uma simples alternância de poder: “Trata-se de um presidente que quer, de fato, destruir as instituições democráticas”

“Uma das dificuldades de falar sobre o governo Bolsonaro é justamente normalizá-lo; não estamos lidando com uma simples alternância de poder, trata-se de um presidente que quer de fato destruir as instituições democráticas”, afirma o filósofo Marcos Nobre, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e professor livre-docente da Unicamp.
Em entrevista à Agência Pública, Nobre explicou que se a oposição ao governo de Jair Bolsonaro (sem partido) insistir na estratégia de fidelizar parcelas separadas do eleitorado, sem pensar numa grande coalizão de forças, será impossível derrotar o atual presidente em 2022. Para Nobre, Bolsonaro governa para um terço do eleitorado, no qual se apoia para não sofrer impeachment e chegar ao segundo turno das próximas eleições.
O pesquisador aponta o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), como o único a tentar fazer uma articulação de convergência do campo democrático. Já o ex-presidente Lula, em sua avaliação, tem agido no sentido oposto. “A coisa que me assusta é as pessoas dizerem que ele [Bolsonaro] está acuado, que está nas cordas. Todo outsider diz ‘eu estou acuado, preciso da ajuda de vocês para continuar vivo, para lutar contra esse sistema’, e todo mundo acredita”, analisa. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como analisa o governo de Jair Bolsonaro até aqui?
Muita gente está muito assustada, mas não o suficiente para se mobilizar. Acho que isso tem a ver com o fato de o Bolsonaro não ter um projeto claro. Que ele é autoritário todo mundo já entendeu, mas as pessoas se perguntam o que vai fazer: não tem como colocar tanque na rua, fechar o Congresso ou o STF, fazer expurgo na universidade ou no serviço público. Então, que tipo de autoritarismo é o seu? Esse é o perigo: nem o próprio Bolsonaro sabe o que quer fazer, a única coisa que tem é uma intenção autoritária. Ele está procedendo por etapas. A primeira é destruir as instituições democráticas da Constituição de 1988 – primeiro você destrói, depois pensa o que é possível fazer em termos de autoritarismo. Também temos que entender que o Brasil elegeu um presidente de extrema direita depois que vários outros países já o tinham feito – Hungria, Polônia, Filipinas, Índia, Estados Unidos. O Bolsonaro vai olhando a situação internacional e vendo o que esses líderes autoritários estão fazendo em seus países para saber que rumo dar ao seu autoritarismo no Brasil. As pessoas ainda não estão suficientemente assustadas porque não está claro, para a sua maioria, que o Bolsonaro não tem pressa, é um sujeito metódico – e é difícil de entender porque o método dele é o caos.

Pode explicar?
Se ele consegue destruir as instituições da Constituição de 1988, vai ter elementos no mundo, nesses países todos, para implantar elementos autoritários depois: vão ser zonas livres de homossexuais como na Polônia; massacres étnicos como na Índia; assassinatos oficiais de supostos traficantes de drogas como nas Filipinas e assim por diante. Bolsonaro está dizendo que primeiro precisa destruir para depois poder construir, e o que vai construir? A real democracia. A democracia falsa é a da Constituição de 1988, por várias razões, e a primeira delas é que a Constituição acabou com a ditadura militar, o modelo do que é uma democracia para Bolsonaro – todos os partidos e governos que vieram depois são de esquerda. E essa é a falsa democracia. Até partidos tradicionalmente de direita são considerados de esquerda, porque estiveram no poder nesse período pós-Constituição. Então, o primeiro passo é destruir a ordem constitucional e as instituições ligadas a elas. Como você faz isso? Vai lá e lança um decreto que extingue o Ibama? Não, você coloca alguém no Ibama que destrói o meio ambiente. Elimina a Fundação Palmares? Não, coloca lá alguém que diz que no Brasil não tem racismo, quando a fundação foi criada justamente para combater o racismo. Você vai destruindo as instituições por dentro.

Muito se diz que as instituições brasileiras estão respondendo aos ataques que têm sofrido. Você concorda?
As pessoas falam que as instituições estão funcionando, sim, mas dê quatro anos a esse governo para você ver o que vai acontecer. Não é questão de as instituições funcionarem ou não, o que está em causa agora é um projeto de destruição das instituições. A primeira etapa é a do primeiro mandato, mas o projeto do Bolsonaro não é de quatro anos, é de décadas. Em primeiro lugar, porque o período que vivemos desde 1985 é o mais longo período de democracia no Brasil. A democracia criou raízes e foi aperfeiçoando as instituições, então é mais difícil destruí-las do que foi para a ditadura militar em 1964, quando você não tinha nem 19 anos de democracia. Dá mais trabalho, ele precisa de mais tempo. O projeto ainda está em elaboração, tem uma fase negativa, em que estamos agora, e terá uma fase positiva, quando veremos que tipo de coisas da experiência internacional o Bolsonaro vai querer implantar aqui e fazer uma versão brasileira desse caldo de autoritarismo que ele está encontrando no mundo.

Como Bolsonaro conseguiu desenvolver e disseminar essa estratégia “antissistema”?
Ele conseguiu fazer isso porque a democratização brasileira, com fases diferentes, funcionou de maneira em que a grande maioria dos partidos não se distinguia entre si – havia partidos que aderiam ao governo fosse ele qual fosse, mesmo tendo vencido a eleição um candidato presidencial que não tinha sido apoiado por aquele partido. Cria-se então a ideia de que todo mundo está no poder o tempo todo, com a exceção de uma pequena franja que fica esperando a sua chance de liderar a mesma coalizão indistinta e amorfa – isso foi o que chamei de peemedebismo e que durou até 2013.
O que o Bolsonaro fez foi dizer: “Olha, esse é um sistema inerentemente corrupto que só beneficia as próprias pessoas que nele estão, é um sistema que só prejudica as pessoas”. Todo mundo que não é ele [Bolsonaro] é sistema, e ele consegue ser um presidente antissistema, anti-establishment, porque consegue convencer um terço do eleitorado de que esse sistema que faz mal às pessoas e só quer beneficiar a si mesmo está mais vivo do que nunca e resiste a ele, Bolsonaro.

Como ele conseguiu se vender enquanto outsider, embora exerça mandatos políticos há mais de 30 anos?
Porque ele sempre foi marginal, nunca foi alguém central no sistema. Teve mandatos, mas nunca conseguiu entrar em negociações e ter poder de barganha. Muitas vezes não era interessante para ele, dada a sua base eleitoral, fazer esse tipo de acordo. Essa é uma maneira de se vender; a outra é fazendo um discurso autêntico: ele não é de extrema direita da boca para fora, é extrema direita de verdade. Mesmo que a maioria esmagadora da população brasileira não seja de extrema direita, uma parte dela viu ali uma pessoa autêntica. Ele conseguiu essa credibilidade junto ao eleitorado, mas é claro que só isso não explica. A vitória do Bolsonaro tem que ser vista como uma confluência única no tempo: faixas do eleitorado que normalmente escolhiam candidaturas diferentes ou eram indiferentes a todas as candidaturas confluíram para a candidatura dele naquele momento específico de 2018.

Para Nobre, a energia social que apareceu nas manifestações de junho 2013 “foi dispersada, inutilizada e jogada fora”. 

Na semana passada, a imprensa noticiou que o presidente divulgou em seu perfil pessoal do WhatsApp vídeo com convocação para ato a favor do governo cujas pautas incluem protestos contra o Congresso e STF. Seus apoiadores dizem que tais protestos são necessários porque o Congresso trava o projeto de governo bolsonarista. Esse argumento viola o princípio da separação dos poderes?
Quando perguntamos se ele viola o princípio de separação dos poderes, estamos considerando que esse é um governo normal, e não é. Uma das dificuldades de falar sobre o governo Bolsonaro é justamente normalizá-lo; não estamos lidando com uma simples alternância de poder, trata-se de um presidente que quer de fato destruir as instituições democráticas da ordem de 1988. Não foram apenas seus apoiadores que disseram que o Congresso está travando o governo, foi o próprio presidente, na última live de quinta-feira [27 de fevereiro]. E ele está repetindo o que o próprio filho Carlos já havia falado há seis meses: que dentro da democracia não vamos chegar no ritmo de mudanças que querem. Esse é um momento gravíssimo, porque o presidente da República, enquanto “antissistema”, está convocando para uma manifestação contra o sistema, representado pelo Congresso e o STF. Muitas pessoas falaram que o pano de fundo dessa disputa é o orçamento – essa é outra maneira de normalizar o Bolsonaro, dizendo “ele está jogando duro, mas está tentando fazer uma negociação sobre o orçamento”. Como podemos considerar que essa é uma luta política normal quando se está utilizando um recurso destrutivo da ordem democrática? Não dá.

Você vê distensões dentro do governo?
A tensão que identifico desde dezembro de 2018 se dá entre uma ala mobilizadora e uma ala organizadora. A ala mobilizadora precisa enfraquecer e atacar permanentemente as instituições. A organizadora precisa garantir que o Estado continue funcionando. Essa ala organizadora é, em sua grande maioria, formada por militares, são eles que estão garantindo que o Estado brasileiro funcione, apesar dos ataques da ala mobilizadora. Ou seja, acredito que grande parte dos militares – eu diria que a maioria dos que estão no governo – não compactua com um projeto autoritário. Estão preocupados que um governo disruptivo desorganize o Estado brasileiro e que isso produza a coisa que a corporação militar mais teme, que é o caos de verdade – uma coisa é o caos institucional, a outra coisa é o caos na rua. Se o Estado parar de funcionar, o governo cai em três meses.


Os militares têm sido caracterizados como “os adultos na sala”.
É perigosíssimo falar isso, não tem ninguém mais adulto que o Bolsonaro. Tem uma tensão entre os militares. O Bolsonaro se utilizou de três instituições que nas pesquisas são as mais apreciadas pela população brasileira: a Igreja, a família e as Forças Armadas. A corporação militar entendeu que não tinha como se separar desse governo e que, portanto, o mal menor seria participar dele para impedir o desastre.


Em entrevistas e artigos, você tem discutido que a estratégia de Bolsonaro se fia na manutenção de uma base de apoio que inclui cerca de 30% do eleitorado, sem se preocupar em cativar o restante. Essa estratégia é eficiente a longo prazo?
Plenamente eficiente por uma razão simples. A lógica dos três terços é: um terço apoia, um terço rejeita e um terço não apoia nem rejeita. A posição de cada um dos três terços reforça a dos outros. Nesse processo, todos se sentem confortáveis, porque, do lado eleitoral, todo mundo que vai se apresentar para as eleições de 2020 diz: eu serei a pessoa que, ao chegar no segundo turno com o Bolsonaro, vai conseguir reunir os dois terços contra ele. Essa é a pior ilusão que existe, porque essa pessoa está dizendo: preciso chegar ao segundo turno e, para isso, preciso atacar quem? Não o Bolsonaro, não acho que ele seja atacável, já está no segundo turno em 2022. Então vou atacar outras candidaturas do campo democrático com as quais terei que concorrer. Ou seja, você tem uma guerra destrutiva dentro do campo democrático, que é maioria nesse país, para chegar ao segundo turno com um presidente de extrema direita. O resultado disso vai ser que as outras candidaturas não vão migrar para esse candidato – depois que você destruiu os outros adversários no campo democrático e convenceu todo mundo, você quer que eu, que não votei em você antes, agora vote? A lógica dos três terços é perversa e só vai deixar de ser se as forças políticas do campo democrático sentarem para fazer um acordo nacional do ponto de vista eleitoral – do ponto de vista da sociedade civil é mais complicado. Do ponto de vista eleitoral, [reproduzir essa lógica] é a definição que deu Einstein à burrice: repetir exatamente os mesmos procedimentos esperando obter resultados diferentes. Essa é a desgraça anunciada. As forças democráticas estão justificando a própria inação e incapacidade de agir com a ideia de que esse governo é insustentável. Falaram isso do governo Trump, e ele caminha para a reeleição, firme e forte.

Eleitoralmente, a estratégia de Bolsonaro é a mesma de Trump?
É a mesma, igualzinha: você mantém uma base fiel que não é a maioria do eleitorado – não governa para a maioria porque isso justamente é velha política, é mentira, o sistema governa para si mesmo, e para que eu possa governar para todo mundo primeiro preciso destruir o sistema. É essa a lógica que o Trump aplicou e que o Bolsonaro está seguindo. Só que temos que fazer a ressalva, verdade seja dita: o Trump nunca participou, apoiou ou fez apologia a uma ditadura militar como a brasileira, o Bolsonaro fez. O Trump, comparado ao Bolsonaro, é um liberal. A coisa que me assusta é as pessoas dizerem que ele está acuado, que está nas cordas. Todo outsider diz “eu estou acuado, preciso da ajuda de vocês para continuar vivo, para lutar contra esse sistema”, e todo mundo acredita. A mídia trata o Bolsonaro como se ele não tivesse mais margem de manobra. O momento é muito grave, mas parece que não é grave o suficiente ainda, porque, como o projeto não ficou claro, as pessoas não sentem. Bolsonaro só briga pelas pautas que dizem respeito a esse um terço do eleitorado, que ele precisa para duas coisas: não sofrer o impeachment e chegar ao segundo turno em 2022. Se não tiver esse grande acordo das forças do campo democrático, o Bolsonaro está reeleito. Tem que ter um acordo nacional para que uma candidatura do campo democrático vença o Bolsonaro em 2022, e é necessária uma investida contra essa sua base de sustentação, porque ela não é monolítica.

As forças democráticas estão justificando a própria inação e incapacidade de agir com a ideia de que esse governo é insustentável.

No último artigo que escreveu para a revista piauí, você chamou isso de “paralisia da ação”. Na sua avaliação, como é possível acabar com essa paralisia?
A candidatura Bernie Sanders nos EUA é herdeira de um movimento social chamado Occupy Wall Street. O fato de o sistema político americano ser poroso, de permitir que você entre e dispute uma prévia mesmo sendo um desconhecido, uma pessoa que nunca teve uma projeção nacional muito grande, faz com que esse movimento possa se multiplicar e chegar ao sistema político. No Brasil, isso foi inviabilizado quando, em junho de 2013, a resposta do sistema político foi se blindar contra a sociedade em vez de criar canais para que aquela energia social entrasse no sistema e criasse mecanismos para fazer transformações institucionais. Pelo contrário, o sistema político viu junho de 2013 como uma ameaça, como algo que era uma onda passageira de insatisfação – não conseguiu entender que aquilo era algo muito mais profundo. Aí vem, por exemplo, a Operação Lava Jato e diz “olha, essa energia está toda solta aí e não tem quem pegue, ela não consegue entrar”. A Operação Lava Jato prometeu para a sociedade fazer a reforma do sistema político porque o sistema não a queria fazer – o que é mentira, porque o Judiciário não pode fazer isso, muito menos a primeira instância. Então, uma candidatura como a do Bernie Sanders nos foi inviabilizada no Brasil pelas respostas que os partidos e muitos movimentos sociais deram a junho de 2013: eles travaram a possibilidade de uma real transformação. Travaram também a possibilidade de um Macron – para falar de candidatura que considero de direita –, que também fez o movimento de aproveitar a insatisfação antissistêmica para se apresentar eleitoralmente dessa maneira. Isso está inviabilizado aqui, essa é a situação trágica do Brasil: a energia social que apareceu em 2013 foi dispersada, inutilizada e jogada fora. Isso fez, paradoxalmente, fortalecer os partidos, eles se tornaram o único canal de comunicação entre a sociedade e o sistema – os mesmos partidos que impediram a sociedade de entrar no sistema. A primeira coisa que os partidos deveriam ter feito depois de junho de 2013 eram prévias. Quem foi que abriu para as pessoas? O Bolsonaro. A extrema direita está dando de lavada na direita e na esquerda, que não foram capazes de entender o que estava acontecendo na base da sociedade.

Pode-se dizer que, por conta de tudo isso, as pessoas desanimaram de ir às ruas?
Foi isso que aconteceu. Falta energia organizativa neste país? Não falta. A quantidade de coletivos que se formam nas periferias o tempo inteiro, a quantidade de gente que senta para conversar sobre política é enorme. Mas tem duas coisas importantes: primeiro, essa energia não tem como entrar no sistema político, que realmente se blindou contra ela. Os partidos não se reformam, porque para eles também é interessante ficar com o monopólio da representação. E, de outro lado, as pessoas ficaram frustradas com junho de 2013. Quem não ficou frustrado com junho de 2013: lavajatistas e bolsonaristas. O que é trágico da situação brasileira hoje, não só porque a chance de reeleição do Bolsonaro é alta, é que estamos nas mãos dos partidos, precisamos dos partidos para sair dessa ameaça autoritária e não temos qualquer penetração neles enquanto sociedade civil.

Qual é a alternativa?
Se a análise que estou fazendo estiver correta, dependemos de um acordo entre partidos e forças políticas estabelecidas. É preciso que se convençam de que é necessário fazer um acordo para além da eleição, para defender que as eleições continuem existindo do jeito como a gente conhece. Para isso, precisa ficar claro que o sistema, tal como funcionou de 1994 a 2013, tinha problemas [que não serão resolvidos] simplesmente com a entrada em vigor das novas regras, como a cláusula de desempenho, ou proibição de coligação e proporcionais. Um sinal importante de que você começa a ter algum tipo de acordo de concertação entre os partidos seria eles se coordenarem para apoiarem candidaturas uns dos outros em diferentes cidades e abrirem mão de candidaturas em determinadas praças. Isso demonstraria um certo desejo de dizer: “Olha, não tem só uma coisa eleitoral em jogo nessa eleição”.

Você enxerga alguma figura fazendo esse esforço no campo democrático?
O governador Flávio Dino [do Maranhão] é a grande esperança que temos nesse momento, é alguém que compreendeu profundamente o momento grave que a gente vive. E que, não só por palavras, mas por ações, está tentando produzir esse tipo de convergência de que eu estava te falando.

Nesse sentido, como avalia o posicionamento daqueles que até agora estão colocados como adversários do Bolsonaro?
Objetivamente, a lógica que o Lula expressa nos discursos é a de reforçar a fidelização do seu eleitorado. Ou seja, reforçar a lógica dos três terços, fazendo com que as candidaturas da centro direita e da direita – que considero do campo democrático porque não são Bolsonaro e de extrema direita – tenham de se contrapor a esse discurso dele. E, portanto, reproduz a luta entre forças dentro do campo democrático para ver quem é que vai chegar ao segundo turno. Mas tem esse tipo de esperança, com o Flávio Dino, e não estou discutindo candidatura, mas postura. Flávio Dino tem a postura de uma pessoa que acha que a democracia está em risco, que o momento é grave e que para isso nós precisamos construir uma ampla coalizão – não uma coalizão eleitoral, mas política – que não se apresente unitária na eleição, necessariamente – pode até se apresentar se evoluímos para isso –, mas que tenha um compromisso de impedir a reeleição do Bolsonaro.
E, para que comece, precisa ter conversa. Precisamos parar com esse negócio de ficar exigindo autocrítica de todo mundo. Autocrítica, por definição, é “auto” – você não pede para outra pessoa. Se todo mundo quiser acertar a conta com o passado, não vai ter futuro. Essa fixação de quem é o culpado é tudo o que o Bolsonaro quer. E a gente só discute isso há cinco anos, de quem é a culpa. Isso é a raiz da inação.

Para terminar, em que medida o que acontecer nas eleições dos EUA este ano pode influenciar os rumos do bolsonarismo no Brasil?
Em termos de tática, o Trump é a maior referência [do Bolsonaro], e isso é bom para ele porque o normaliza: ele diz fazer a mesma coisa que o Trump, e ninguém pode falar que os Estados Unidos não sejam uma democracia. Se o Trump perde as eleições, Bolsonaro perde uma perna. Toda a extrema direita mundial perderia a sua âncora. O Trump legitima governos autoritários mundo afora, e é um autoritarismo pela via eleitoral.

Colaboraram Raphaela Ribeiro e Rute Pina.

segunda-feira, 2 de março de 2020

As definições de escravidão foram atualizadas ou “Homo homini lupus”

Nesta foto vemos uma jovem pedalando sem capacete, sem nenhum vínculo empregatício e sem nenhum direito trabalhista entregando comida de um restaurante que não é onde ela trabalha para alguém que a pediu por um aplicativo milionário que também não é onde ela trabalha.

Usando uma bicicleta que não é sua e pela qual ele paga para usar a um banco bilionário que também não é onde ela trabalha.

Na verdade, ela não trabalha em nenhum lugar, porém trabalha muito (e provavelmente recebe pouco). Mas acredite: há quem diga que isso é "oportunidade", "empreendedorismo" ou "criatividade do brasileiro". Eu tenho outros nomes: servidão e escravidão.

Servidão pois, CONSCIENTEMENTE, na teoria, ela concordou em servir o sistema capitalista em troca de um valor. Escravidão pois, diante das circunstâncias, ela,INCONSCIENTEMENTE, na prática, se escravizou em troca de um valor.

Se ela:
- cair,
- se machucar,
- for roubada,
- for estuprada numa emboscada,
- for atropelada, enfim,
- morrer, ...

...azar o dela. Ninguém mais será responsável e muito menos arcará com os prejuízos pela fatalidade. E, repito, há quem acha isso "normal" e ainda incentiva: "força de vontade".

Thomas Hobbes afirmou em Leviatã (1651) que o "homem é o lobo do homem" (“homo homini lupus”). Segundo Hobbes, em um estado natural, o individualismo humano o compele a viver em guerra uns com os outros. Portanto, para ele, é de nossa natureza usurpar e explorar outros seres humanos. Isso revela que o homem é o predador do próprio homem, sendo um vilão para ele próprio.

Em essência, ainda estamos em 1651.👆🏿
Jorge Souto Maior Desembargador do TRT 15 Região
As definições de escravidão foram atualizadas ou “Homo homini lupus”

Nesta foto vemos uma jovem pedalando sem capacete, sem nenhum vínculo empregatício e sem nenhum direito trabalhista entregando comida de um restaurante que não é onde ela trabalha para alguém que a pediu por um aplicativo milionário que também não é onde ela trabalha.

Usando uma bicicleta que não é sua e pela qual ele paga para usar a um banco bilionário que também não é onde ela trabalha.

Na verdade, ela não trabalha em nenhum lugar, porém trabalha muito (e provavelmente recebe pouco). Mas acredite: há quem diga que isso é "oportunidade", "empreendedorismo" ou "criatividade do brasileiro". Eu tenho outros nomes: servidão e escravidão.

Servidão pois, CONSCIENTEMENTE, na teoria, ela concordou em servir o sistema capitalista em troca de um valor. Escravidão pois, diante das circunstâncias, ela,INCONSCIENTEMENTE, na prática, se escravizou em troca de um valor.

Se ela:
- cair,
- se machucar,
- for roubada,
- for estuprada numa emboscada,
- for atropelada, enfim,
- morrer, ...

...azar o dela. Ninguém mais será responsável e muito menos arcará com os prejuízos pela fatalidade. E, repito, há quem acha isso "normal" e ainda incentiva: "força de vontade".

Thomas Hobbes afirmou em Leviatã (1651) que o "homem é o lobo do homem" (“homo homini lupus”). Segundo Hobbes, em um estado natural, o individualismo humano o compele a viver em guerra uns com os outros. Portanto, para ele, é de nossa natureza usurpar e explorar outros seres humanos. Isso revela que o homem é o predador do próprio homem, sendo um vilão para ele próprio.

Em essência, ainda estamos em 1651.👆🏿
Jorge Souto Maior Desembargador do TRT 15 Região

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O TRANSPORTE COMO DIREITO, NÃO COMO MERCADORIA

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

 Em Volta Redonda, são três ônibus elétricos com tarifa zero, são os "verdinhos".
Em 2015, a Constituição Federal passou a prever o transporte como um dos direitos sociais, com a aprovação da PEC de autoria da deputada Luiza Erundina (Emenda Constitucional nº 90 de 2015). Para além da simbologia, o transporte coletivo público, ainda que majoritariamente operado por empresas privadas através de modelos de concessão, foi revestido de importância e relevância jurídica que não detinha anteriormente, ao constar ao lado de outras áreas fundamentais como segurança, educação e saúde. 
No entanto, o transporte é o que menos tem subsídio, o que menos é visto como um direito, e o que menos tem atenção do Estado Brasileiro em todos os níveis. São poucas as iniciativas no país que debatam formas diferenciadas de enfrentar o problema do transporte público. Um exemplo recente e interessante é a implementação da tarifa zero no município de Maricá, através dos chamados “vermelhinhos”, ônibus da prefeitura através de sua empresa pública de transportes e que são de graça. Em Volta Redonda, há uma experiência com três ônibus elétricos que circulam com tarifa zero pelas áreas comerciais do município e são conhecidos como os "verdinhos".
Nos municípios brasileiros o que se vê é uma situação precária, seja pela péssima qualidade do serviço, parca fiscalização, ausência de responsabilização das empresas juridicamente, as altas tarifas, os vácuos legislativos e de regulamentação, os conflitos advindos das novidades tecnológicas no setor nos últimos anos como os aplicativos e plataformas e pela quase inexistência de controle social sobre as planilhas tarifárias e sobre o transporte como um todo. O fato é que o transporte é um dos alvos principais de reclamação da população em todo o país. 
A luta pela redução da tarifa tem toda a legitimidade e importância, mas devemos questionar as bases do sistema em Volta Redonda, desde o papel da STMU até o controle social sobre o transporte através de verdadeira participação da população e das entidades no processo de construção da planilha (há cidades onde inclusive fazem-se pareceres públicos), hoje nas mãos dos grupos e empresas que indicam os valores e custos de sua planilha, dando origem a discrepâncias bastante questionáveis, uma vez que não há modo de aferir a realidade dos números ali expostos. Um caso clássico da denominada captura dos reguladores pelos regulados. 

Devemos debater seriamente o financiamento do transporte público, sobre o viés do DIREITO SOCIAL e SERVIÇO PÚBLICO. 

Estudos demonstram que impostos sobre combustíveis reduziriam a inflação e o número de veículos nas ruas, bem como o impacto da poluição nas cidades. É necessário um debate sério sobre a CIDE e outros impostos e contribuições sobre os efeitos do transporte individual, para além do combustível, aumentando a transferência para os municípios ou municipalizando o imposto e o dever de tributar para deter o impacto socioambiental, econômico e social do transporte individual pessoal e de serviço. Faz sentido os municípios serem autorizados a criar um imposto incidente sobre as vendas de gasolina e derivados no varejo, e todo o valor arrecadado ser utilizados no investimento ou custeio dos sistemas de transporte urbano. 
Criarmos uma taxa de transporte coletivo, a ser paga pelas empresas e estabelecimentos grandes no município ou criação de um fundo público de transporte com a redução gradativa das tarifas, e gestação de uma tarifa zero. 
O mundo todo subsidia o transporte, por ser um direito social. Aqui, só no lombo do trabalhador. 
Em Volta Redonda, deveríamos debater uma taxa de transporte coletivo. O Vale-transporte é a forma individual de financiar o transporte do trabalhador. Correta, pois ninguém deve pagar para trabalhar, e os custos de alimentação e transporte devem ser supridos por aquele que literalmente compra a força de trabalho e as horas do outro. É importante ainda, pois as empresas contribuem com uma limitada parte do custo do transporte. Mas as empresas têm responsabilidade com o sistema como um todo, uma vez que ele é estruturado de forma a servir às empresas e o capital. Não é a toa que os horários de pico são justamente a entrada e saída dos trabalhadores dos seus estabelecimentos (9h e 18h). 
Soluções que poderiam ser implementadas passariam por impostos sobre a folha de pagamento e taxas municipais. A França vem implementando sistema semelhante com sua taxa de pagamento do transporte (TVT em francês) incidente sobre a folha das empresas e que hoje responde por cerca de 40% do orçamento do transporte francês. 
No Congresso Nacional, já há propostas interessantes que podem ser pontos de partida dessa inversão da lógica de como é estruturado o sistema de transportes no país e que claramente, não está dando certo, como a PEC 159/2017. 

Vale lembrar ainda que as empresas de transporte coletivo tiveram desde 2013, o ISSQN/ISS, PIS e COFINS zerado.

Iniciativas legislativas em âmbito federal e municipal desoneraram as empresas buscando responder às manifestações sem mexer na raiz dos problemas ou no lucro dos permissionários. Mesmo ainda nesta lógica, poderia ser proposto no âmbito do governo do estado a isenção do ICMS no diesel e outros produtos utilizados pelo transporte público, numa tentativa de se reduzir o impacto no bolso do cidadão do aumento das passagens anual. 
As isenções tributárias são vendidas como benefícios à população, “pois a tarifa deixará de aumentar”. Mas na verdade, ela sempre aumentou no ano seguinte! 
Sem transparência, os permissionários ganham dos dois lados: do Governo e do povo! Ou seja, as manifestações de Junho de 2013 deixaram neste caso um legado ótimo para as empresas e péssimo para os usuários e população em geral! 
Lembremos que não é por ser caro, que deixa de ser direito. Reajuste tarifário não necessariamente é sinônimo de aumento. No entanto, atualmente é como o fosse. Além disso, é um sistema que incentiva as empresas a reduzir a qualidade do serviço para cortar custos. 

Mas é possível fazer diferente!

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Alckmin ainda tem tempo, dinheiro e mercado para reverter esse imbróglio em que se meteu.

Mesmo com todas as condições de vencer um Lula forte (mais preso), o PSDB vai engrossando
o caldo do ex-capitão vendo escapar entre seus dedos a oportunidade de chegar à presidência.
Por Peterson Leal Pacheco*

A velha literatura da Ciência Política ainda tem muito a dizer de como operam muitos fenômenos vivos na contemporaneidade. Daí que autores que se dedicaram a pensar organização política ganham (ou deveriam ganhar) audiência.
Lênin é um dos grandes. Como grande, tem muito a dizer sobre os fenômenos que atravessam as decisões políticas dos vários campos de força (aliás conceito de outro gigante, Bourdieu). No Brasil, em pleno processo eleitoral, quem está no "olho do furacão" muitas vezes não tem tempo ou não tem acúmulo bibliográfico mesmo para aprender com os clássicos.
Em Lênin, um dos temas mais centrais era o da organização. Hoje em dia, sobretudo em tempos de eleição, está fora de moda falar em organização. A linguagem mercadológica substitui o velho conceito pelo chavão "marketing partidário-eleitoral".
Ocorre que na hora da onça beber água, não tem jeito, é nos clássicos que temos explicações e orientações absolutamente relevantes.
É o que me ocorre na disputa presidencial, particularmente porque fiquei pensando um pouco sobre os dilemas tucanos. Como pode um candidato que reúne os principais ativos eleitorais correr tanto risco de ser derrotado precocemente?
Lênin começa a explicação. Falta política e falta organização. Falta política para perceber a conjuntura de desagregação social e adesão acrítica, das massas e dos políticos (inclusive intelectuais), à posições políticas extremadas e antidemocráticas. Lá no tempo do Partido de Lênin eles resolveram apelidar esse conjuntura de "LIQUIDACIONISMO". interessante é que mesmo Lênin adverte que o derretimento das estruturas políticas e partidárias são notadas à esquerda e à direita do espectro político. O líder dos bolcheviques então elenca uma série de providências necessárias à manutenção do mínimo de ordem partidária, como mitigação daquilo que ele próprio descrevia como "(...)desagregação ideológica e orgânica e desistência do espírito de partido(...). LÊNIN, V. I. Obras Completas - Tomo XVII.
O outro tópico, a falta de organização, ocupa Lênin. Veja que parece mesmo alguém falando dos partidos políticos de 2018, mas Lênin escreve em 1912. No meio de forte conjuntura de repressão e desagregação os partidos políticos começam a se desmoronar. Lênin escreve aos diretórios no sentido de formular antídotos para o que entende ser uma crise definida como a "(..)lógica do desencanto com relação ao partido(...)" e um "(...)desalento que se expressa na ideologia da “substituição da organização do partido por uma organização legal ‘amorfa'(...)". LÊNIN, V. I. Obras Completas - Tomo XVII. 
Para o primeiro problema (falta política) o remédio, simplificando grosseiramente, é reforçar os quadros partidários e reduzir o partido ao tamanho do seu real fôlego. Para o segundo problema (falta organização) o remédio juntar os cacos, ler adequadamente as oportunidades e redesenhar o "(...)nível de mobilização e radicalização das ações do partido(...)". LÊNIN, V. I. Obras Completas - Tomo XVI. Pessoalmente me lembro de quando li uma carta de Lênin sobre a participação do partido nas eleições de 1912. Eu, um borra-calças de menos de 16 anos, absolutamente convicto de que o partido político ao qual eu era filiado tinha que botar pra quebrar contra tudo e contra todos, recebi uma aula de real politik. Escrevia Lênin, sobre a tática em 1912: "(...)Todos nós sabemos muito bem que as eleições de 1912 (...) não resultarão nem podem resultar em uma ‘mobilização de massas’ nem ‘ampla’ nem ‘aberta’. Oferecerão a modesta oportunidade para um trabalho que não será nem amplo nem aberto, e essa oportunidade deve ser utilizada.(...)". LÊNIN, V. I. Obras Completas - Tomo XXI. 
Fiquei chocado. A receita de Lênin era sim o oportunismo. Senso de oportunidade, muita atividade de propaganda e agitação do partido. Propaganda, ação qualificada de debate político; e agitação do partido, ação organizada de militância e desempenho de tarefas partidárias.
Mais tarde, já no IFCS, tive contato com outros marxistas. Muitos me ajudaram a compreender melhor o Lênin. Outros foram importantes para complementar Lênin. Hanna Arendt e Gramsci são meus xodós. Em ambos eu entendi bem mais e com melhor qualidade a idéia Leninista de oportunismo. E, nesses dois autores percebi quão estratégico é a capacidade de agir "sob a negociação com as forças políticas". Não é sem motivo que Carlos Nelson nos ajudou a todos entender bem o que significa, em Gramsci, a idéia de política como "catarse".
Gramsci tem uma preocupação útil, entre muitas: do que é feita a "pequena política"? O dia-a-dia, as decisões mais comezinhas, o emaranhado complexo e nem sempre racional que mistura interesses/desejos/psique/frustrações, o contato cotidiano dos sujeitos e o sabor das suas decisões cotidianas e atitudes práticas. Na pauta está o desafio de se entender como essa "pequena política" ajuda entender a formação dos Campos de Força e a formação de lideranças políticas. Nas palavras de Gramsci, "(...)torna-se fundamental o entendimento do conjunto de mediações que conformam e esclarecem esse domínio e seu consentimento: como se governa e por que o governado obedece(...)". GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. RJ: Civilização Brasileira, 2000, vol. 3.
O italiano sabia bem a importância da "pequena política", ainda que sua elaboração esteja centrada naquilo que ele entendia como "grande política". E, bem ao estilo de quem leu Lênin, Gramsci entendia perfeitamente os efeitos da propaganda e da agitação partidária.
Hoje, chamamos de militância a ação dos "partidários" que operam a propaganda e a agitação partidária. Gramisci, além de conhecer bem as bases que sustentam organizações políticas que ambicionam uma posição hegemônica (realizam a catarse de esgrimar na pequena política e alcançam propósitos mais estratégicos e de impacto mais ampliado na vida social, quer dizer, protagonizam a grande política) não descuidou de ler atentamente críticas contundentes dos pesquisadores que advertiam as muitas fragilidades das organizações políticas, e, no limite, do próprio campo de forças. Uma das críticas bem contundentes o italiano encontrou em Robert Michels: GRAMSCI, A. Robert Michels e os partidos políticos. In: Maquiavel, a política e o Estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1968.
A equação é relativamente simples: pouca organização (desalento e baixo associativismo) + pouca política (descrença nas organizações e fragilidade de idéias) + pequena política sufocando a grande política + oligarquias partidárias desligadas de qualquer base social = terreno fértil para esfacelamento dos campos de força política.
Os campos de força esfacelados abrem caminho para muitas maluquices políticas. Na verdade, nem são maluquices. São mesmo o resultado de cálculos feitos por pequenas lideranças que, ao sabor da sua própria sorte (sem direção consistente ou organismos políticos que lhes abriguem), se entregam desbragadamente ao imediatismo e ao mais radical "self- made politic". Essa equação cria micro lideranças que são uma antítese das "bestas de votar": como estudou Weber quando os parlamentares ingleses perderam sua autonomia para as oligarquias partidárias (WEBER, M. Política como vocação. In: Ciência e política: duas vocações. São Paulo. Cultrix. 1984). A equação de hoje gera o contrário da "besta de votar", gera o self-made politic". Alguém que se lixa para as estruturas partidárias e mergulha de cabeça nos mais agudos interesses particulares.
Ser capaz de ler adequadamente essa equação é uma vantagem competitiva, já que a linguagem hodierna reduz a política à mero mercado eleitoral. Não ser capaz de ler a equação e nem conseguir intervir em seus termos significa ficar refém do resultado daquela expressão.
No páreo deflagrado em direção ao Palácio do Planalto temos, bem claro, um exemplo de alheamento da equação do sel-made politic. Alckmin é um candidato com as mais absurdas vantagens que se possa imaginar. Sua campanha conseguiu reunir boa capacidade de financiamento, boa base midiática, tempo de TV, e, principalmente, conseguiu amealhar uma monstruosa máquina eleitoral extremamente capilarizada.
Mas, o que ocorre agora? A mídia tenta e o tempo de TV é uma espécie de tábua de salvação, a conferir se realmente vai ser tão importante assim. Não vai ser simples, as entrevistas e debates que acompanhei não ajudam o tucano e ajudam menos ainda as estruturas midiáticas a sustentarem a promoção da candidatura do ex-governador de SP.
Mas, pior, ele está simplesmente perdendo as máquinas eleitorais que estavam à sua disposição. A figura 1 desta postagem mostra que mesmo entre tucanos históricos o candidato do PSDB não conseguiu estabelecer diálogo necessário para formatar a participação dessas lideranças em torno da sua campanha. A figura 2 mostra que Alckmin não consegue operar a equação do sef-made politic nem mesmo nas suas bases eleitorais mais recentes. Tucanos do seu estado, ancorados à Dória, evitam o candidato do PSDB e acionam suas máquinas eleitorais em favor de Bolsonaro. A figura 3 é ainda mais reveladora, um irmão de um dos principais ideólogos de Alckmin simplesmente declara que sua máquina eleitoral está à disposição de Bolsonaro e não do tucano. A figura 4 revela que em regiões onde Aécio obteve mais de 80% dos votos na eleição de 2014 a máquina eleitoral simplesmente ignora Alckmin e desagua integralmente na candidatura de Bolsonaro. Na figura 5 vimos que mesmo aliados que se dispuseram tentar aproximação com Alckmin, desistiram. Tem faltado ao tucano a capacidade de enxergar a equação do self-made politic. 
Não é que Bolsonaro tem maiores habilidades que Alckmin. Ocorre que no cenário liquidacionista (lembra do Lênin?), com os campos de força baratinados, com amplo desencantamento com a política, com máquinas eleitorais nas mãos de self-made politics, a resultante é o esvaziamento das estruturas centralizadas e das lideranças pouco afeitas a mergulharem seus pés no barro da pequena política.
Parece mesmo que, com todas as condições de vencer um Lula forte (mais preso), o PSDB vai engrossando o caldo do ex-capitão vendo escapar entre seus dedos a oportunidade de chegar à presidência.
Vitória da pequena política, da choldra mais desforme, do cenário político que privilegia os mais famintos self-made politics.
Alckmin ainda tem tempo, dinheiro e mercado para reverter esse imbróglio em que se meteu. Se vai conseguir, veremos. Não conseguindo, fortalece Bolsonaro.
A pergunta que fica para outro momento é: ESTARIA LULA ENXERGANDO A EQUAÇÃO DO "SELF-MADE POLITIC" COM MELHOR CLAREZA QUE SEU ANTÍPODA TUCANO?







Peteson Leal Pacheco, é sociologo, mestre em estatística e professor universitário.
Fonte: encurtador.com.br/eFJV3


segunda-feira, 9 de julho de 2018

Às favas os escrúpulos


Essa batalha não acabou ontem. Ela desemboca na eleição com Lula livre ou preso.


por Tereza Cruvinel

As praças se encheram de pessoas esperando por Lula Livre e a noite caiu sem que a ordem de soltura do desembargador Rogério Favreto fosse cumprida.
Uma sequência de atos impróprios e mesmo ilegais postergaram a soltura até que se encontrasse a solução para manter Lula preso, mandando às favas os escrúpulos em relação ao Estado de Direito, como fizeram os que assinaram o AI-5.

Solto, mesmo não podendo ser candidato, Lula mudaria completamente a dinâmica da disputa presidencial.

Por isso valeu tudo ontem para mantê-lo preso.

O longo domingo terminou com o presidente do TRF-4, Thompson Flores, decidindo que o desembargador de plantão não tinha autoridade para conceder habeas corpus a Lula, e dando razão a Gebran Neto, que desautorizara a soltura.

Este capítulo inesperado da saga de Lula – que em nenhum momento acreditou que seria liberado – terá suas consequências, e a mais óbvia delas será o aumento da percepção de que há parcialidade da Justiça contra Lula. E isso terá seus efeitos eleitorais.

O juiz Sérgio Moro será novamente denunciado ao Conselho Nacional de Justiça, agora por desobediência à Justiça e quebra da hierarquia.

Por outros abusos, nunca foi molestado.

Nove entre dez juristas, do porte de um Lênio Streck, sustentaram ontem que um juiz em férias não pode se imiscuir em procedimentos judiciais.

E muito menos, determinando à PF que descumprisse a ordem de um desembargador que lhe é superior, violando a hierarquia.

Foi com absoluta naturalidade, como se isso não fosse escandalosamente ilegal, que policiais federais informaram os deputados petistas autores do pedido de habeas corpus - Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous – que o juiz havia ligado de Lisboa desautorizando a soltura.

E quem foi que avisou Moro em Lisboa?

Pimenta soube que foi o delegado-chefe, Roberval Ricalvi.

Só numa republiqueta um delegado federal, ao invés de cumprir uma ordem judicial, vai atrás do juiz que condenou o réu, pedindo sua autorização.

Depois da ordem telefônica, Moro tascou um despacho contrário à soltura, embora estando de férias.

Esta sua disposição para sujar a toga na caça a Lula foi maior que na condução coercitiva e que na divulgação de grampos ilegais para impedir que Lula fosse nomeado ministro, e com isso seus processos fossem transferidos para o STF.

Difícil de prever com que rigor o CNJ examinará o caso, agora que o Judiciário perdeu completamente a racionalidade.

A ordem de Moro era ilegal e discutível, e por isso a PF seguiu protelando a soltura até que viesse solução mais consistente.

E veio a manifestação do desembargador Gebran Neto, alegando o fato de ter sido relator do processo de Lula no TRF-4. A defesa usara argumentos impróprios, induzindo seu colega Favreto a erro, disse ele.

Mas Gebran também está de férias, e logo tão impedido quanto Moro.

Às 16hs04m Favreto expediu sua terceira ordem de soltura, dando prazo de uma hora para ser cumprida e contestando o colega. Não fora induzido a erro algum. Lula, além de ter ainda direito a recursos, devia ser solto em função de fato novo, a condição de pré-candidato a presidente. Com ele preso, privado de participar da campanha, o processo eleitoral se entortará, sem a garantia de igualdade de oportunidades aos concorrentes.

Um país com os nervos retesados esperou pelo transcurso desta uma hora.

Atos se formaram em Curitiba, Rio, Brasília e outras cidades.

O Sindicato de São Bernardo novamente foi ocupado. Às 18 horas, os deputados petistas foram levados a uma sala da PF, e informados de que a ordem de soltura só agora havia chegado.

E lá ficaram sem receber informações, enquanto lá fora o pais seguia em suspense. Finalmente, a solução para manter Lula preso foi dada por Thompson Flores, com o despacho em que deu razão a Gebran Neto.

Essa batalha não acabou ontem. Ela desemboca na eleição com Lula livre ou preso.

O Judiciário saiu mais desacreditado e a vitimização de Lula, fortalecida.

Fonte: http://www.jb.com.br/coisas-da-politica-2/noticias/2018/07/09/as-favas-os-escrupulos/

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Todos à beira de uma ataque de nervos, exceto Lula


O mercado financeiro já conta com o dólar o acima de R$ 3,80 e não duvida de um valor de R$ 4.

O mercado financeiro já conta com o dólar permanecendo acima de R$ 3,80 e não duvida de um valor de R$ 4.
Geraldo Alckmin dá um “chilique”, atira o guardanapo na mesa de um jantar com governadores e líderes dos tucanos e só falta dizer que arranjem outro candidato.
Henrique Meirelles, pretendendo o sonho de espanar dos seus ombros a pecha de “candidato do Temer”, ameaçado de perder a legenda  peemedebista.
Jair Bolsonaro tentando fingir-se civilizado para ver se rompe o teto de 20% ou pouco mais dos votos.
Marina Silva dá sinais de ser uma espécie cada vez mais ameaçada e ficar recolhida a nichos ecológicos.
Ciro Gomes, o único que parece crescer em pesquisas, o faz tão lenta e timidamente, sem empolgar o povão, sente que não terá futuro se não for o candidato ungido por Lula.
De todos os personagens da tragédia política do Brasil – e há outro nome para chamar o processo eleitoral de 2018?-  o único que apareceu hoje falando com tranquilidade, depois de estar sendo mantido em silêncio por quase dois meses, foi o ex-presidente Lula.
E por que?
Porque Lula é o único que não tem o que perder, pessoalmente.
Independente de poder ser candidato – e é certo que, nas condições atuais, não lhe será permitido ser – é ele o único elemento-chave das eleições, aquele que pode decidi-las, concorrendo ou apoiando outro candidato.
Porque o favoritismo de Lula é a verdade eleitoral e o resto é o que seriam as eleições sem a sua presença.
A única possibilidade de que estas eleições tenham legitimidade é que esta verdade eleitoral esteja na urna, direta ou indiretamente.
Fonte:http://www.tijolaco.com.br/blog/todos-beira-de-uma-ataque-de-nervos-exceto-lula/

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Caminho que falta


Os petistas ironizam: Estão comovidos. Nunca imaginaram haver tanta gente preocupada com o sucesso eleitoral do PT
Tereza Cruvinel
Faltam quatro meses e três dias para o primeiro turno da eleição mas o governo acabou antes do final do mandato. A saída de Pedro Parente da presidência da Petrobras ainda não foi o epílogo da crise deflagrada pela greve dos caminhoneiros. As consequências ainda nem começaram e ainda escavarão mais o trecho de caminho que falta. O problema é como percorrê-lo sem tombos e sem fraturas. Temer, dizem aliados ressabiados, devia fazer como Sarney no final de seu governo: manter o básico e garantir a transição, mas ele parece acreditar que ainda tem um papel relevante a cumprir. 
A greve, além dos transtornos e da devastação econômica que trouxe, aproximou demais o país do abismo, ameaçando a democracia. Houve risco de convulsão e é preciso reconhecer: se quisessem pretexto para um golpe, os militares o teriam tido. A pregação golpista não foi histeria de ocasião. Segundo apurou a Folha de S. Paulo, as Forças Armadas investigam a participação de militares na agitação pró “intervenção militar”, eufemismo para “golpe”. O inquérito do MPF está em andamento e o Brasil precisa conhecer seus resultados.
A queda de Parente foi uma consequência política da ambivalência do governo, que alternou a defesa de sua política de preços dolarizados com a discussão de fórmulas para baratear também, para o consumidor, a gasolina e o gás de cozinha. Ao custo de mais subsídios, impossível. Nem raspando o tacho. 
Já as consequências econômicas (e sociais) das perdas produtivas com a greve e das concessões aos caminhoneiros ainda nem começaram. Algum repique a inflação terá.  Não é provável que os preços fiquem inalterados depois dos danos sofridos por tantos setores.  A frustração do crescimento é óbvia. Analistas já falam em menos de 2% este ano, contra expectativas anteriores de mais de 3%. Os cortes no orçamento atingem programas que vão do policiamento de rodovias (castigo para os caminhoneiros?) ao FIES, um dos mais atingidos, com perda de R$ 150 milhões. No meio do caminho só tem pedras. 
E na política, a erosão da frente que fez o impeachment e deu a cadeira a Temer. As medidas relacionadas com a greve foram e serão aprovadas, mas agendas novas não têm futuro no Congresso. Se vier uma terceira denúncia contra Temer, a Casa conterá o comichão para aprová-la. Até a oposição acha tarde para afastá-lo. Falou-se em antecipação do pleito, mas também não passa, com a direita sem candidato, Lula e Bolsonaro liderando as pesquisas, afora questões constitucionais. A eleição é o porto.
O ex-presidente Sarney teve seu momento de glória com o Plano Cruzado, que deu estrondosa vitória ao PMDB em 1886. O congelamento de preços resultou na falta de produtos, tentou-se até confiscar boi no pasto para garantir a carne. Depois do pleito a inflação voltou com força, outros dois planos vieram, juntamente com a impopularidade. No final, ele optou por levar a cabo sua grande contribuição, a consolidação da transição. Maílson da Nóbrega, no ministério da Fazenda, passou a fazer a chamada “política econômica feijão-com-arroz”: o básico. Na campanha, o governo não teve candidato, apanhou muito mas garantiu a primeira eleição direta. 
Entre aliados, há quem pense sugerir algo parecido a Temer. Que se recolha um pouco, enfrente as emergências, faça o essencial. Que Meirelles seja candidato, se o PMDB quiser.  Mas ele parece convencido de que tem papel maior a cumprir. Do contrário, não estaria pensando em alternativas de preço para a gasolina nem em avançar com a privatização da Eletrobrás. O perigo é provocar mais confusão, na reta da eleição. 
O PT AGRADECE 
Os petistas ironizam: Estão comovidos. Nunca imaginaram haver tanta gente preocupada com o sucesso eleitoral do PT, sugerindo que o partido decida logo quem substituirá Lula na disputa presidencial, para não ficar isolado nem prejudicar as alianças regionais.
fonte: http://www.jb.com.br/coisas-da-politica-2/noticias/2018/06/03/caminho-que-falta/