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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

A DESCRIÇAO DO CARIOCA POR UM PAULISTA, SENSACIONAL,VALE A PENA LER!"

 

o escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade


"Faz 1 ano. Desembarquei com esposa, cachorro e umas malas. A mudança veio no dia seguinte. Levei 33 anos imaginando “como seria”, e agora tenho 1 pra contar “como foi”.

O Rio de Janeiro é a minha Paris. Eu não sonho com a tal de torre, nem me importo com o Louvre e nem acho do cacete tomar café naquela tal de Champs-Élysées. Eu acho charmoso ir a praia de Copacabana, tomar cerveja de chinelo no leblon e ir a um samba numa grande escola.

Sou paulista, nunca tive rivalidade bairrista em casa. Nunca me ensinaram a odiar o estado vizinho, ao contrário, sempre me foi dada a idéia de que estando no Brasil, estou em casa.

Ouvi mil mentiras e outras mil verdades sobre o Rio enquanto morei em São Paulo. Todas justas no final das contas.

Carioca exagera tudo, pra baixo e pra cima. Se elogiar a praia, ele exalta dizendo que é “a melhor praia do mundo”. Se falar que é perigoso, ele não nega. Diz que é “perigoso pra caralho”.

Trata sua cidade como filho. Só ele pode falar mal.

Cariocas não marcam encontro. Simplesmente se encontram.

A confirmação de um convite aqui não quer dizer nada. Você sugere “Vamos?”, eles dizem “Vamo!”. O que não implica em ter aceitado a sugestão.

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Domingo é domingo. E relaxa, irmão. Pra que a pressa?

Em 5 minutos são amigos de infância, no segundo encontro te abraçam e já te colocam apelidos.

Não te levam pra casa. Te convidam pra rua. É curioso. Mas é que a “rua” aqui é tão linda que se trancar em casa é desperdício.

Cariocas andam de chinelo e não se julgam por isso. São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação.

Ao contrário, parecem se sentir mal num ambiente formal e de algum requinte.

“Porra” é um termo que abre toda e qualquer frase na cidade. Ainda vou a uma Igreja conferir, mas desconfio que até missa comece com “Porra, Pai nosso que estais…”.

Cariocas são pouco competitivos. Eu acho isso maravilhoso, afinal, venho da terra mais competitiva do país. E confesso: competir o tempo todo cansa.

Acho graça quando eles defendem o clube rival pelo mero orgulho de dizer que “o futebol do Rio” vai bem. Eles nem notam, mas as vezes se protegem.

Eles amam essa porra. É impressionante.

Carioca é o povo mais brasileiro que há, mas que é tão orgulhoso do que é que nem parece brasileiro.

Tem um sorriso gostoso, um ar arrogante de quem “se garante”.

Papudos, malandros, invocados. Faaaaalam pra cacete. E sabem que estão exagerando.

Eles acham que sabem o que é frio. Imagine, fazem fondue com 20 graus!

A Barra é longe. Buzios, logo ali!

Niterói é um pedaço do Rio que eles não contam pra turista. Só eles aproveitam.

Nilópolis é longe. Bangu também.

Madureira é um bairro gostoso. O Leblon, vale os 22 mil por metro quadrado sugeridos pelos corretores.

Aliás, corretores no Rio são bem irritantes.

Carioca, num geral, acha que está te fazendo um favor mesmo se estiver trabalhando. É tudo absolutamente pessoal, informal.

Se ele gostar de você, te atende bem. Se não, não.

Tá com pressa? Vai se irritar. Eles não tem pressa pra nada.

Sabe aquela garota gostosa que sabe que é gostosa? Cariocas sabem onde moram.

O bairrismo deles é único. Nem separatista, nem coitadinho. Apenas orgulhoso. Ao invés de odiar um estado vizinho, o sacaneiam e se matam de rir de quem se ofende.

Cariocas tem vocação pra ser feliz.

São tradicionais, não gostam que o mundo evolua. Um novo prédio no lugar daquele casarão antigo não é visto como progresso, mas sim com saudades.

São folgados. Juram ser o povo mais sortudo do mundo.

E quem vai dizer que não?

No Rio você vira até mais religioso. Aquele Cristo te olha todo santo dia, de braços abertos. Não dá! Você começa a gostar do cara…

E aí vem a sexta-feira e o dom de mudar o ambiente sem mexer em nada. O Rio que trabalha vira uma cidade de férias. As roupas somem, aparecem os sorrisos a toa, o sol, o futebol, o samba, o Rio.

Já ouvi um cara me dizer um dia que o “Rio é uma mentira bem contada pela mídia”. Ele era paulista, odiava o Rio, jamais tinha vindo até aqui.

E é um cara esperto. Se você não gosta do Rio de Janeiro, fique longe dele.

É a única maneira de manter sua opinião.

Em quase toda grande cidade que vou noto uma força extrema para fazer o turista se sentir em casa. Um italiano em São Paulo está na Itália dependendo de onde for. Um japones, idem. Um argentino vai a restaurantes e ambientes argentinos em qualquer grande cidade.

No Rio de Janeiro ninguém te dá o que você já tem. Aqui, ou você vira “carioca”, ou vai perder muito tempo procurando um pedaço da sua terra por aqui.

Não é verdade que são preconceituosos. É preciso entender que o carioca não se diz carioca por nascer aqui. Carioca é um perfil.

Renato, o gaúcho, é um dos caras mais cariocas do mundo.

Tem todo um ritual, um jeitinho de se aproximar.

Chame o garçom pelo nome, os colegas de “irmão”. Sorria, abrace quando encontrar. Aceite o convite, mesmo que você não vá.

Faça planos para amanhã, esqueça-os 10 minutos depois. Faça amigos, o máximo de amigos que conseguir.

Quanto mais amigos, mais cerveja, mais risadas, mais churrascos, mais carioca você fica.

E quanto mais carioca você é, mais você ama o Rio. Como eles.

Gosto deles. Gosto de olhar pra frente e não ver onde acaba. Gosto de sol, de abraço, de rir muito alto e de não me achar um merda por estar sem grana.

Gosto de como eles se viram. Gosto da simplicidade e da informalidade que os aproxima do amadorismo.

A vida não tem que ser profissional.

Tem que ser gostosa.

E de gostosa, convenhamos, o Rio tá cheio.

Ops! Desculpa, amor! Escapou.

abs, merrrrmão!"

Rica Perrone

 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O relógio da Lava-Jato e o rumo da História

A Lava Jato e o impeachment tem um objetivo: a remoção de um governo popular, derivado das urnas, e sua substituição por um arranjo das elites, para implementar uma agenda que candidato algum defenderá numa campanha.

Não haverá nova eleição presidencial direta, mas a escolha de
 um residente pelo Congresso, como prevê a Constituição. 
Por Tereza Cruvinel, em seublog:

Se estas duas primeiras revelações do que será delatado pela Odebrecht – R$ 10 milhões em caixa dois para o PMDB, pedidos por Temer, e de R$ 23 milhões para a campanha de Serra em 2010 - tivessem como beneficiários Lula, Dilma ou o PT, as providências da Lava Jato viriam a jato: remessa imediata ao Procurador-Geral Rodrigo Janot, que rapidamente pediria ao STF autorização para investigá-los, em se tratando de figuras com foro especial, o vice no exercício da Presidência e senador que está ministro de Estado. Mas como se trata do PMDB e do PSDB, todo mundo sabe, os ponteiros do relógio da Lava Jato vão ser contidos.
Não há motivos para ilusão. As revelações da Odebrecht, que parece disposta a cumprir a promessa de uma “colaboração definitiva” sobre sua participação no “sistema ilegal ilícito de financiamento do sistema político-eleitoral”, conforme nota que emitiu em março passado, não devem afetar a marcha do golpe no Senado. Nem por isso, o controle do relógio deterá a marcha da História, que aponta para um “blow up” do sistema, uma explosão que permitirá a restauração do funcionamento da instituições democráticas, a depender da participação ativa da sociedade nesta empreitada.
No julgamento de Dilma, diante destas e de novas revelações que virão, um Senado realmente republicano e ciente de seu “papel histórico”, como vem dizendo seu presidente Renan Calheiros para justificar o impeachment, pensaria duas vezes antes de efetivar Temer. Reconduziria Dilma sob o compromisso, que ela vem reiteirando, de voltar não para governar, mas para propiciar a pacificação do país através do plebiscito sobre a nova eleição. Mas é ilusório também esperar isso de uma Casa onde as cartas estão marcadas e contadas. A “colaboração definitiva” pode alcançar mais de cem deputados, mais de dez governadores, mais de 30 senadores. Enquanto estiver em curso a deposição de Dilma, estarão a salvo.
Os ponteiros do relógio da Lava Jato, do Ministério Público e de setores do Judiciário poderão, inclusive, retardar as investigações do que será revelado pela Odebrecht para o ano que vem. Com Temer detonado, mas já tendo cumprido a tarefa de viabilizar o afastamento de Dilma e do PT do governo, não haverá nova eleição presidencial direta, mas a escolha de um presidente pelo Congresso, como prevê a Constituição. O mesmo Congresso que terá centenas de integrantes delatados. Na lista da Odebrecht, estão mais de cem deputados, mais de 30 senadores, mais de dez governadores ou ex-governadores.
Este e outros jogos serão tentados para que tenha êxito o projeto que está na gênese da crise, da Lava Jato e do impeachment: a remoção de um governo popular, derivado das urnas, e sua substituição por um arranjo das elites, para implementar uma agenda que candidato algum defenderá numa campanha. É a velha fórmula prussiana dos acordos “por cima”, que pontilha a História do Brasil. O arranjo que pode estar apenas em sua primeira fase: Com Temer na presidência, em decorrência do singelo fato de que era ele o ocupante da vice-presidência e dispôs-se a participar da conjura.
Mais cedo ou mais tarde, entretanto, haverá a detonação geral. Mais cedo ou mais tarde, a sociedade entrará em cena com vigor ainda não demonstrado nestes quase dois anos de crise, ultrapassando a Lava Jato e os arranjos de cúpula, exigindo o direito de decidir, pelo voto, quem irá governar. Como fez em 1984, na campanha das diretas-já, alterando o resultado do arranjo que estava acertado para o Colégio Eleitoral.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Não era contra a corrupção. Era contra o PT.

A condenação absurda de Dirceu a 23 anos é o fecho da 
obra de Moro contra um dos grandes arquitetos do PT.
Por Vitor Rezende

Rapaz, em uma semana Gilmar Mendes abre inquérito e em 24h manda suspender as investigações contra Aécio, na mesma semana o processo do Aécio da lava jato foi arquivado, processo do Eduardo Paes do PMDB foi arquivado, processo do Carlos Sampaio do PSDB arquivado. OS processos do trensalão contra José Aníbal (PSDB-SP) e Rodrigo Garcia (PSDB-SP) foram arquivados por Marco Aurélio.
Cunha é indiciado desde a era Collor, participou de todos os esquemas, desviou da Telerj no governo Collor, cehab, desviou o fundo prece da CEDAE, lista de furnas, lista da odebrecht, e por fim a lava jato e contas na suíça e está aí livre e solto, derrubando presidente. Já Dirceu, pegou 23 anos. Nem assassina reincidente pega 23 anos. 
O PT achou que poderia participar dos esquemas, achou que seria amigo da elite empresarial, achou que participaria da farra do financiamento de campanha, e que não custaria caro. Achou que poderia ser igual os partidos que combatia. O Problema do PT que achou demais, e tinha certezas de menos. Lembrei dos conselhos de meu pai, você é pobre nunca faça nada errado, pois filho de pobre vai para cadeia. Rico que pode fazer o que quiser. O PT é igual pobre, se fizer coisa errada é condenado. A esquerda é marginalizada assim como é o pobre. Já nascemos errados. A esquerda não pode parecer ética, ela tem que ser ética. A direita sempre se vendeu como ética em seus discursos, mas estamos vendo que não são bem assim, são mais podres do que pau de galinheiro. O PT seguiu o caminho fácil, buscou atalhos para chegar mais rápido no poder, mas estes atalhos custaram caro, se não para todos, para o Dirceu e sua família, está custando bem caro. A mão é pesada para uns, e uma pluma para outros. Que o PT aprenda que ele não é o PSDB.
Para terminar quero dizer ainda que Na Noruega, uma sociedade imensamente mais avançada que o Brasil construído pelos plutocratas predadores, 21 anos de cadeia foi a sentença de Anders Breivik, o fanático de direita que matou dezenas de jovens de um partido para ele complacente contra a “estratégia” de dominação muçulmana. Dois anos menos que Dirceu, portanto.

 Vitor Rezende é Analista. https://www.facebook.com/vitor.nat?fref=nf  

domingo, 13 de março de 2016

Lula, Dilma e PT. Não se trata das suas defesas, e sim da duríssima tarefa de enfrentar a luta de classes.

Por Peterson leal*

Não se trata apenas de um desmonte do PT mas de valores.
Tenho tratado no meu Facebook da defesa de Lula. Meu argumento jamais foi a defesa de Lula por uma questão corporativa: "se direita ataca a esquerda tem que defender". Defendo, e defenderei Lula. Não um Lula abstrato, nem o fetichizado. Um Lula operário, pai dos pobres, nordestino “self-made man”. Defenderei Lula; tal qual ele é: paradoxal, complexo e limitado. E a defesa em favor de Lula, penso, significa mais uma das difíceis tarefas engendradas no bojo da luta de classes.
Não entendo o cenário político como uma ofensiva da oposição descontente com o resultado eleitoral de 2014. Não se trata, apenas, de um desmonte do PT e de suas lideranças. Quem compreende dessa forma não encontra qualquer motivação para defender Lula. Afinal, foi o próprio PT e suas lideranças que construíram o terreno onde se atolam. Em um bom texto Mauro Iasi comenta:

"(...)Assim, nos parece que a burguesia está disposta a se livrar de seu aliado, não por suas eventuais virtudes de um líder operário que um dia foi, mas pelo simples fato de que, tendo sido muito útil para operar uma democracia de cooptação fundada no apassivamento da classe trabalhadora, torna-se agora fonte de instabilidade que pode colocar em risco os interesses dominantes. E a burguesia vai usar todos os meios para tanto, fazendo uso inclusive daqueles instrumentos de seu Estado-classe que o PT julgava que fossem “republicanos” e que estariam a serviço desta abstração chamada “nação”.(...)".

Respeito, mas divirjo. A ofensiva conservadora é muito mais do que um ataque contra seu aliado estratégico. Fosse só isso o golpe viria simplesmente contra todas as idiossincrasias que estão presentes em Lula. É perfeitamente possível desmontar Lula exclusivamente se valendo das suas ações. Não haveria qualquer dificuldade em liquefazer o PT unicamente discursando suas contradições abismais. O próprio mandato de Dilma não resistiria à avalanche de lama praticada em seu seio.
Ocorre que junto do ataque ao Lula temos visto não o desmoronamento de uma liderança. A ofensiva é muito mais gigantesca. Aliás, mais importante que a desmontagem de Lula, Dilma e o PT enxergamos a burguesia usando todas as suas estruturas para inculcar VALORES que, se não construídos nos governos do PT certamente foram potencializados nos últimos anos.
A valorização da política geoestratégica SUL-SUL, o desenvolvimento regional, a valorização das políticas de assistência, a afirmação do talento e da força do povo mais pobre, a potência econômica das classes subalternizadas, o compromisso com o combate à fome e à vulnerabilidade... esses e outros tantos valores ganharam musculatura nesses 12-13 anos de governos do PT. E são esses valores; mais que Lula, Dilma ou o PT, que estão na mira da elite burguesa.
Um observador mais crítico pode defender que o próprio PT, e principalmente Dilma, no desespero pelo poder, flexibilizam – eles próprios – os tais valores fortalecidos à duras penas. Os exemplos do pré-sal, da retirada de orçamento para energias renováveis, veto à auditoria da dívida, retirada de direitos do seguro desemprego e alguns outros são muito evidentes. Mas, a despeito dessas evidências (talvez um aceno para a costura de um novo pacto apassivador) o capital político e simbólico acumulado por Lula lembra aos setores mais conservadores da elite brasileira que o risco de seguir oxigenando ainda mais valores empoderadores das classes subalternizadas.
Com isso, na verdade, quem tornou Lula um fetiche foi a burguesia. E inscreveu nesse fetiche marca indelevelmente negativa. Trata da derrubada de Lula como rito de passagem para um "Brasil melhor", sem a ameaça "comunista do PT". É muito mais que desmontar Lula, a tarefa é cessar a desmercadorização das pessoas.

A ação, pública e militante, contra os abusos desferidos à Lula é, antes de uma defesa ao próprio, uma tarefa configurada na luta de classes.

Mais uma vez, sem perder de vista as idiossincrasias de Lula, Dilma e PT. Não se trata das suas defesas, e sim da duríssima tarefa de enfrentar a luta de classes.

*Sociólogo e Prof. Universitário.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Standard and Poor's errou tanto durante a crise que pagou uma multa de US$ 1,37 bilhão às autoridades norte-americanas por ter enganado os investidores 2007/2008

Rebaixamento da nota de risco visa controlar a economia nacional
Depois de meses de crise e dificuldade econômica e de forte pressão por parte de representantes da agiotagem internacional e seus porta-vozes, como o jornal The Economist, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s cortou, na noite desta quarta-feira (9), a nota de crédito do Brasil, de BBB- para BB+, com perspectiva negativa. Com isso, o Brasil deixa de ter, por esta agência, o chamado grau de investimento, espécie de selo de bom pagador conferido ao país.

Por Wevergton Brito Lima 

Empresas como a S&P não são oráculos infalíveis. Confiar cegamente nas análises 
de agências de risco seria como pedir conselhos sobre alimentação vegetariana a um leão. 
Este movimento atende aos interesses do mercado financeiro daqui e de fora, que aposta nesta ação para exercer maior controle sobre a economia nacional.
A armadilha dos agiotas internacionais para aprisionar as economias de diversos países funciona mais ou menos assim. Os governos necessitam de dinheiro para investir em obras de infraestrutura, etc. Para se capitalizar estes governos lançam títulos com determinado valor de face com direito a juros sobre este valor. Os especuladores, para comprar estes títulos, exigem receber juros altos sobre o valor de face. Desta forma, diversos países entram em uma armadilha que só quem já deveu a agiotas sabe como funciona.
Na época de FHC, homem de confiança dos bancos, criou-se, a mando destes senhores, a “lei de responsabilidade fiscal”. Por esta lei, o governo pode não ter dinheiro para aumentar o investimento em saúde ou em educação, mas jamais pode deixar de pagar os famosos títulos da dívida pública.
Lula e Dilma não tiveram força política e/ou não reuniram convicção suficiente para romper com esta lógica. Resultado, hoje a dívida pública bruta brasileira representa cerca de 63% de todo o orçamento da União. 
Daí, de forma inédita, o governo em agosto previu, na proposta orçamentária de 2016, um deficit fiscal de R$ 30,5 bilhões, ou cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto.
As formas de cobrir este deficit não são consensuais no próprio governo. Uns propõem aumentar impostos, outros propõem cortar os gastos, tudo isso, como lembra Dilermando Toni, jornalista especializado em economia e membro do Comitê Central do PCdoB, em um quadro de recessão, onde se consome e se produz menos.
É neste panorama que se usa como pretexto para rebaixar o grau de investimento do país o argumento de que o governo não poderia, em tese – diante do anunciado deficit –, garantir o pagamento dos encargos da dívida pública. 
Usamos a palavra pretexto, não para eludir as dificuldades pelas quais passa nossa economia, mas para situar corretamente o fato em seu cenário real. O Brasil é, infelizmente, há anos, um bom e fiel pagador dos encargos da dívida pública e todos, até as chamadas agências de risco, sabem que (mais uma vez infelizmente) o país continuará a ser bom pagador, entre outros motivos devido à reserva de divisas acumulada com os governos Lula/Dilma. Então por que este rebaixamento? Ora, o rebaixamento do grau de investimento significará, em curto prazo, uma piora imediata da situação econômica. Na manhã desta quinta-feira (10), a Bolsa brasileira abriu em queda de 2,06%, a 45.696 pontos; as ações da Petrobras caíram 5% e o dólar abriu o dia com alta de mais de 2% e chegou a bater R$ 3,91. Mas principalmente ficará mais difícil para as empresas brasileiras e para o governo captarem dinheiro no exterior, pois inevitavelmente o nível de incerteza e desconfiança sobre a economia aumentará, e este é um ambiente favorável para a banca influenciar os rumos da economia em direção aos seus interesses.

Agências de risco: Instrumentos a serviço da banca

Empresas como a S&P não são oráculos infalíveis. Confiar cegamente nas análises de agências de risco seria como pedir conselhos sobre alimentação vegetariana a um leão. 
A crise mundial do capitalismo em 2007/2008 é um bom exemplo disso. A Standard and Poor's errou tanto durante a crise que pagou uma multa de US$ 1,37 bilhão às autoridades norte-americanas por ter enganado os investidores sobre a qualidade dos créditos imobiliários “subprimes”, que originaram a crise financeira.
Em 2007 as agências de risco consideravam a Islândia um país modelo em termos de solidez econômica, tanto que tomaram a decisão de elevar as notas dos três principais bancos do país para o “triplo A”, maior grau de segurança de investimento possível. Isso não impediu que menos de um ano depois os três bancos falissem, arrastando com eles todo o sistema financeiro e o próprio país cuja economia foi à bancarrota.
O gigante financeiro Lehman Brothers Holding quebrou no dia 15 de setembro de 2008, no que foi a maior falência da história norte-americana. No dia 17 de março do mesmo ano, outra famosa agência de risco, a Moody’s, afirmava por escrito que “o Lehman continuará obtendo níveis aceitáveis de lucros trimestrais”. Na própria manhã em que o LB quebrou a agência classificava o banco com nota “A” (investimento seguro).
Os exemplos são intermináveis. Em 2001, a Enron Corporation era uma gigantesca companhia de energia estadunidense que empregava 21 mil pessoas. Mas faliu espetacularmente, deixando atrás de si uma dívida de US$ 25 bilhões. Até cinco dias antes da falência as agências de classificação de risco recomendavam a Enron como um investimento seguro.
E por que elas erram tanto? Ora, as chamadas agência de risco são meros braços do capitalismo internacional. Não têm necessariamente compromisso com a análise concreta da realidade, mas atuam em conformidade e de acordo com os interesses do mercado financeiro e das grandes corporações, não estando ligadas de forma alguma a qualquer coisa remotamente parecida com direitos dos povos ou das nações.
Escrevi mais acima que estas agências não são oráculos (os Deuses falavam através dos oráculos), e, no entanto, elas têm um Deus. O Deus destas agências é a oligarquia financeira e fazer mais dinheiro a custo cada vez menor – de preferência através da especulação – é a única coisa que as move.
Parte do problema é que em postos-chave do governo Dilma existem fiéis desta mesma religião.
A saída é, como tem reafirmado a presidenta, apostar em políticas que voltem a fazer o país crescer e distribuir renda, coisa importante para o povo e muito pouco significativa para Wall Street.

Do Portal Vermelho

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Associação dos Jornalistas do Sul Fluminense é fundada como espaço legítimo de crescimento profissional, organização e debate da categoria na região.

Profissionais e acadêmicos juntos na luta por melhorias na região.

CARTA DE BARRA MANSA
Os jornalistas do Sul do Estado do Rio de Janeiro, reunidos em Barra Mansa, dia 26 de maio de 2015, no II Fórum de Jornalistas do Sul Fluminense, reafirmam sua função social de oferecer à sociedade um jornalismo de qualidade, plural, responsável, ético e voltado ao interesse público. Ratificam como primeiro e essencial o compromisso com a informação como direito fundamental do cidadão, que em hipótese alguma pode ser ameaçado.
A divulgação da informação correta e precisa é direito e dever dos meios de comunicação e dos jornalistas. A manipulação, a distorção e a deturpação devem ser denunciadas como atentados à cidadania. Ao mesmo tempo, o II Fórum de Jornalistas do Sul Fluminense condena o abuso do poder econômico, a imensa concentração da mídia, a censura por pressões política e econômica e a violência contra os jornalistas - ameaças ao interesse público, à liberdade de imprensa e à democracia.
Realizado em um cenário diverso daquele em que ocorreu o I Fórum, em 2007, o II Fórum dos Jornalistas do Sul Fluminense se dá em uma conjuntura de profunda crise da mídia tradicional, com fechamento de veículos e desemprego crescente de profissionais de comunicação. Diante disso, surgem a cada dia novas experiências de trabalho para os jornalistas em veículos alternativos, novas mídias, assessorias e consultorias, demandando iniciativas empreendedoras individuais, comunitárias e cooperativadas. Essa situação, entretanto, não pode abrir caminho para o exercício ilegal e a precarização da profissão.
Os jornalistas do Sul Fluminense reafirmam, portanto, como fundamental a exigência do diploma superior de Jornalismo para o exercício profissional e a aprovação da PEC 206/12 pela Câmara dos Deputados, defendendo a qualidade dos cursos de Comunicação Social e denunciando a prática irregular da profissão na região. Em nome da valorização profissional, a categoria deve se manter vigilante contra as iniciativas de precarização das relações de trabalho, defendendo as conquistas dos trabalhadores brasileiros e repudiando o projeto que amplia a terceirização.
O II Fórum dos Jornalistas acontece poucos dias depois da derrubada pela Assembleia Legislativa do veto do governador Pezão ao projeto que criou o piso salarial regional dos jornalistas. Uma conquista histórica que é resultado da luta de muitos anos da categoria através dos seus sindicatos e importante demonstração da força da organização dos jornalistas que deve ser implantada imediatamente na nossa região.
Os jornalistas participantes do II Fórum manifestam ainda o seu apoio à criação da Associação dos Jornalistas do Sul Fluminense, como espaço legítimo de crescimento profissional, organização e debate da categoria na região. Repudiam a prática antidemocrática e omissa do sindicato regional, que desde a sua fundação nunca se abriu à participação dos jornalistas e sempre serviu aos interesses da exploração patronal.
Os jornalistas do Sul-RJ assumem o compromisso com a luta coletiva pelo respeito e a dignidade profissional. E o sucesso deste II Fórum demonstrou que o caminho correto é o da participação, do debate democrático, da mobilização, da formação, da atualização e da união com as legítimas entidades e movimentos representativos dos jornalistas brasileiros. E que a garantia das conquistas é a organização.
Vamos à Luta, Jornalistas do Sul Fluminense!
Barra Mansa, RJ, 26 de maio de 2015

MEU REPÚDIO AO PASSARALHO!



Foi com grande revolta que recebi a notícia da demissão de vários jornalistas pelo Diário do Vale desde a última segunda-feira, dia 18 de maio. O pretexto alegado seria o aumento de vencimentos previsto na Lei nº 6.983, que instituiu o piso salarial dos jornalistas no estado do Rio de Janeiro.
Tão grave quanto esse fato é a postura omissa do Sindicato dos Jornalistas do Sul Fluminense que, através do seu presidente, deixa de propor a luta e a mobilização para ser cúmplice do não cumprimento da Lei. 
É inadmissível que os empresários utilizem como argumento para as demissões o pagamento de um salário digno para trabalhadores de formação universitária – o valor do piso é R$ 2.432,72. Ele é um direito conquistado, logo, tem que ser pago. O que pode ser negociado é o pagamento dos atrasados, já que a aplicação da Lei é retroativa a janeiro de 2015. 
Se os veículos passam por crise econômica, que as empresas sejam transparentes e abram suas contas e de seus donos. Todos conhecem diversos empresários de jornais da região que, ao longo dos anos, construíram um patrimônio pessoal invejável enquanto seus funcionários vivem com enormes dificuldades. 
Os colegas demitidos têm direito ao novo piso desde janeiro passado. Logo, as indenizações terão de ser calculadas sobre o valor estabelecido em Lei.
Já foi feito contato com o Sindicato dos Jornalistas do Estado do RJ e a Federação Nacional dos Jornalistas para que denunciem as empresas que descumpram a Lei ao Ministério Público do Trabalho. 
Está mais do que na hora dos trabalhadores da mídia da nossa região serem reconhecidos e respeitados. E isso só acontecerá com a união, participação e luta da categoria
Alvaro Britto – Jornalista e professor

terça-feira, 5 de maio de 2015

Fusão entre PSB X PPS: Fraude ideológica e realinhamento de direita.

Uma farsa ideológica que transforma o PSB em partido assumidamente de direita

Por Roberto Amaral, em seu blog:

Está nas folhas: o Partido Socialista Brasileiro, que tanto lutou para fixar-se no campo da esquerda, vai fundir-se no PPS, a excrescência reacionária da direita. Transformar-se-ão, os dois, no grande satélite do PSDB, e juntos navegarão na nau dos ressentidos. A que enxovalhamento moral está sendo levado o partido fundado por João Mangabeira em 1947, e reorganizado por Jamil Haddad, Evandro Lins e Silva, Antônio Houaiss e o signatário em 1985!

Em nome de quê?

Já não existe o combativo partido que se opôs a Sarney, a Collor, que fez frente a FFHH e à privataria tucana.  Mas tudo é possível esperar de sua atual direção. Tudo que signifique indignidade ideológica. A direção que, por mero oportunismo, aliou-se a Aécio Neves em 2014, antes havia negociado seu apoio a Ronaldo Caiado em Goiás (na ocasião, o partido foi salvo pela salutar reação de Marina Silva, então candidata a Vice-Presidente da República) e ainda antes havia tentado negociar a sigla com o Júnior do Friboi. Essa mesma gente entregou o partido em Santa Catarina ao clã Bornhausen, no Paraná a Beto Richa (cuja obra está estampada nas manchetes) e acolheu em seus quadros, como deputado federal, o inefável Heráclito Fortes.
A fusão, portanto, é apenas o clímax de um processo de grave decadência ético-ideológica. Uma vertiginosa trajetória de declínio político e renúncia moral, orientada pelo ganhar a qualquer custo. Uma vez mais – e não pela última vez – os fins justificam os meios, ainda que espúrios.
Essa fusão é moralmente inaceitável, é o ponto final do PSB. É o sepultamento, no seu programa, do socialismo, do nacionalismo e da prática de uma política de esquerda. No entanto, é processo natural no PSB de hoje, que nada tem a ver com o PSB de seus fundadores, que nada tem a ver com o PSB de 1990, no qual recebi Miguel Arraes, e nosso ex-presidente só ingressou no PSB porque naquele então éramos um partido do campo da esquerda socialista. O de hoje, esse que vem sendo moldado desde 2014, nada lembra aquele antigo PSB que abrigou Pelópidas da Silveira e Francisco Julião. Esse PSB que se auto-imola não honra a biografia de Luiza Erundina. Hoje, seu representante conspícuo, seu melhor ícone ideológico, é o Pastor Eurico, ventríloquo da direita mais embrutecida. Em breve, o PSB de Arraes será o partido do Sr. Roberto Freire, já anunciado como seu primeiro vice-presidente.
A fusão é, ademais, um brutal erro histórico, embora seja o segundo momento da opção pelo conservadorismo, quando, com a crise do PT e de outras siglas de nosso campo, tinha todas as condições objetivas, de, como sempre defendi, cumprir o papel de estuário da esquerda socialista e democrática. Ao invés de fazer frente à maré conservadora, o PSB optou por a ela aliar-se.

Esse neo-PSB me causa engulhos.

Por tudo isso, por tudo o que foi dito e pelo que ainda precisa ser dito, a fusão é tristemente lógica, pois dá sequência aos vitoriosos esforços de seus dirigentes atuais para jogar a história partidária na lata de lixo e abdicar de seu futuro. Podendo ser o grande leito da esquerda, optou o PSB pelo papel de valhacouto de uma direita espúria. É obra dos que mudam para ganhar, e transformam a política em mero jogo estatístico, ou instrumento de mesquinhas realizações pessoais.



É a miséria da política.

Ora, que esperar de um partido que, ainda se dizendo socialista, vota majoritariamente contra os trabalhadores e consagra a precarização do trabalho? Que esperar de um partido que, dizendo-se socialista, propõe o ensino do criacionismo em nossas escolas?
De uma forma ou de outra, essa fusão abre caminho para novas fusões, de igual forma indignas mas coerentes, e de igual forma lamentáveis, com outros partidos de direita. Por que não fundir-se, por exemplo, com o DEM de Caiado, e o ‘Solidariedade’ do ‘Paulinho da Força’? O qual, aliás, tentou, muitos anos passados, ingressar no PSB, mas teve seu pleito rejeitado por Miguel Arraes. As razões de Arraes para negar-lhe ingresso são hoje, porém, as razões que devem levar os dirigentes adventícios a procurá-lo.
Num ato de dignidade histórico-política (certamente é pedir muito dos atuais dirigentes), o Congresso Extraordinário do PSB, apressadamente convocado, sem nenhuma discussão com as bases, poderia, numa derradeira homenagem a João Mangabeira, Miguel Arraes, Antônio Houaiss, Evandro Lins e Silva e Jamil Haddad, raspar da sigla o ‘S’ de socialismo. Poderia ser apenas ‘P40′, um nada e um número, ou apenas ’40’, como muitos de seus dirigentes atuais pleiteiam, há tempos. Um partido sem projeto, sem ideologia, sem caráter, líquido à espera do recipiente que lhe dará forma, espaço para a traficância ideológica. Mas um partido (se essa designação ainda lhe cabe) apto a crescer estatisticamente nesse deserto moral que ora impera na política brasileira, e no qual sua Nomenklatura atual se refastela e goza.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

SOMOS TODOS CARIOCAS

Chamar o povo do Rio de Janeiro de fluminense, após a fusão com o Estado da Guanabara, é uma arbitrariedade criada pela ditadura militar que nunca encontrou eco na sociedade carioca.

Nayara Justina, a Globeleza  eleita pelo povo brasileiro em 2014, é carioca.

O jornalista e professor universitário, Jorge Alexandre Lucas, publicou artigo em que defende a unidade carioca. Segundo o professor lucas, não se trata de um conceito de identidades dentro do formato sociológico, essencialista, mas sim, de se trabalhar com efeitos de identidades produzidos através de representações simbólicas, efetivadas na experimentação do mundo, na existência. 
A linha de pesquisa que ele utiliza é a Análise de Discurso ou AD francesa, que busca entender os meios de produção dos sentidos, e como esses sentidos geram os efeitos de pertencimento que atuam no imaginário popular. 
Dentro dessa perspectiva é que falamos sobre a identidade do povo carioca e sua sensação de pertencimento, ao mesmo tempo em que denunciamos a tentativa de apagar essa memória, de silenciar e substituí-la por outra inventada institucionalmente a partir da fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro e da não fusão das ex - capitais. 

Fluminense? Não mesmo, de papa-goiaba ao kari´oka, somos todos um.

Lucas publicou o artigo na revista científica CIÊNCIA EM CURSO. Para ler o artigo completo acesse o link:




sábado, 25 de outubro de 2014

LULA E DILMA REIVENTARAM O REAL

O Sociólogo Peterson Leal Pacheco trás dados sobre os projetos em disputa
Minha posição no segundo turno dessas eleições está longe de representar o resultado das minhas convicções ideológicas ou acadêmicas. Ao contrário, parto de uma premissa muito lamentável: a falência dos partidos políticos no Brasil. De uma forma mais ou menos generalizada os partidos perderam (se é que um dia conquistaram esse patamar) a capacidade de se organizarem nacionalmente. Olhamos os partidos políticos e vemos uma fragilíssima constituição de institucionalidades fragmentadas; ideologias fragilizadas; compromissos nada orgânicos. 

Não é por outro motivo que fica reforçada a impressão que sustenta que a decisão do voto fica cada vez mais amarrada à pessoa (candidatura ou grupo político local) do que a um sistema de propostas, ou um partido, ou um conjunto de idéias/ideologias. O casamento, a articulação, entre o indivíduo que é porta voz de uma candidatura e o conjunto partidário ideológico que lhe sustenta é cada vez mais frágil. Resultado de um imenso conjunto de problemas, tema para uma outra conversa. 

Aqui interessa o ponto concreto: tenho tantas críticas ao PT quanto ao PSDB. Esses dois partidos, cada qual à sua maneira, nasceram sob a bandeira da social-democracia. O PSDB mais clássico, o PT filho de uma base ideológica mais neokeynesiana. Ambos se distanciaram de seu ponto de partida. Mas, nesse caminho o PSDB ficou mais distante das bases ideológicas que lhe constituíram. O PT mudou, e na questão estritamente ideológica, mudou, mas não saiu do espectro da social-democracia. 

O PSDB nasceu como um dos mais modernos partidos do Brasil, com invejável aporte ideológico. Fundadores como Ruth Cardoso, Afonso Arinos de Melo Franco, Artur da Távola, José Paulo Bisol, Raymundo de Oliveira, Francisco Weffort (que trocou a social-democracia petista pela tucana em 1994) são exemplos de intelectuais que entraram na política e contribuíram para a forja sólida com que contou o PSDB. O próprio Fernando Henrique, que, lastimavelmente pediu aos brasileiros que esquecessem o que havia escrito. FHC declarou isso quando confrontado com as possíveis contradições entre o que defendia na Teoria da Dependência e os rumos dados por ele ao seu governo, que caminhava para o segundo mandato. 

O poder, tal qual hoje vemos com o PT, desfigurou o ninho tucano. O pensamento mais progressista foi perdendo espaço para um conservadorismo contumaz. Lideranças importantes do partido perdendo lugar para novos nomes, que traziam consigo um ideário estranho ao ponto de partida do PSDB. Tristemente, outros nomes importantes, como o de José Serra e Aécio Neves, aderiram ao grupo conservador do partido, que, mais e mais se distanciou da social-democracia. 

Essa imensa introdução, parafraseando Jânio, fi-lo em homenagem ao amigo. Julgo que merece o tempo dedicado na elaboração dessa premissa que culmina na síntese tão simples : Aécio representa o que há de mais conservador no PSDB. E não é outro, senão ele, candidato e timoneiro da candidatura. Quer dizer, há no PSDB nomes ainda louváveis, mas que estão fora da cena, extraídos pelo mais arcaico pensamento político (e pela mais medonha prática política) personalizado hoje no candidato Aécio. 

Tenho uma trajetória profissional que me colocou em contato com partidos diversos e personalidades políticas ainda mais singulares. No Pará mesmo, contei com o imenso privilégio de fazer parte do início do projeto que vai mudar a cidade de Parauapebas. Tão importante quanto isso, o projeto que vai recolocar a questão do Estado de Carajás em outro patamar. Administrações bem sucedidas e comprometidas com a modernidade e com o futuro das pessoas vão contribuir demais para derrotar o preconceito que percebi, sobretudo fora do estado do Pará, contra esses brasileiros que propugnam mais cidadania e melhor qualidade de vida. Fui servidor de um governo que começa entregando à democracia o importante legado de derrotar o PT local e instaurar um ciclo de respeito ao cidadão, sobretudo aquele mais vulnerabilizado. A coalisão que participei contava com o PSDB, com o PTB e com outros tantos partidos capitaneados pelo PSD. Na Secretaria de Planejamento colaborei com a qualificação dos servidores (curso de capacitação para mais de 150 profissionais); contribui para a retomada de mais de R$16 milhões em convênios que estavam sendo desperdiçados graças à incompetência da gestão petista; tomei parte do processo de modernização que coloca Parauapebas na rota das cidades digitais; participei da comissão técnica que preparou as condições para revolucionar o transporte público da cidade. Essas conquistas e outras tantas, no contexto de derrota do PT. Meu compromisso sempre foi com uma gestão mais competente, mais transparente, mais impactante na vida das pessoas. Não tenho, nem nunca tive, qualquer compromisso com o PT. Não tenho, nem nunca tive, qualquer descompromisso com a social-democracia do PSDB. 

Mas, para a presidência da república não posso perfilar ao lado de Aécio. Ele encarna um conservadorismo que não vejo tomar lugar em um país como o Brasil, de tamanhas incongruências sociais. Somos um país onde o Estado ainda tem um papel fundamental. Como tem sido fundamental em Parauapebas a transformação na Educação, a revolução no transporte público, a transformação na mobilidade urbana, e, muito querida por mim, na possibilidade de ver o poder público municipal ser indutor de novos negócios e novas oportunidades de desenvolvimento econômico, sobretudo fundadas em novas plataformas tecnológicas. Aécio é encarnação de uma postura administrativa que reprime iniciativas como essas. Chama de gasto público o planejamento que pretende investir e mudar a economia. Aposta mais na financeirização e menos na economia real. E, o lastro para tanta cautela em relação ao candidato Aécio pode ser discutido. 

Essa ressalva é a ponte para uma crucial compreensão do processo político e econômico que vivemos no Brasil nas últimas décadas. A campanha do PSDBchama atenção para o principal legado de FHC. O combate à inflação. O remédio amargo da recessão foi o caminho escolhido. Diz o confronto das teorias econômicas que outras alternativas existiam. Mas, não importa nesse momento. Aqui a questão é outra. Uma vez a inflação sob controle os mandatos tucanos não foram capazes de se valer da sua conquista para dar o passo seguinte. Na verdade quem diz isso são dois dos formuladores do Plano Real; Pérsio Arida e André Lara Resende. Ambos concluem que uma quarta etapa no Plano Real seria a recomposição do crescimento da economia e um processo de fortalecimento das bases cambiais do plano. Mas, o fato é que eles não conseguiram responder a todos os revezes por que passou o Plano Real. E, a principal armadilha esteve armada entre a forte dependência externa a que submeteram toda economia brasileira e a fragilização da capacidade produtiva doméstica. Nesse cenário o Brasil sofreu duramente as muitas e fortes crises econômicas que se sucederam. México, Albânia, uma após a outra as sucessivas crises eram as desculpas para se aprofundar as restrições creditícias, aumentar a dívida pública e diminuir sistematicamente os investimentos públicos. 

Até hoje somos dramaticamente arrebatados por uma dívida líquida do setor público. FHC pegou uma dívida pública líquida da ordem de menos de 35% do PIB. Em 1995 o banco Central informa que o ano fechou com DPL de 37,8% do PIB. Isso, em 1998, com apenas quatro anos de Plano Real (implementação da MP 434), já estava em 60,1%. É simples assim, para honrar os compromissos com esses títulos o país se vê obrigado ainda hoje a promover superávits. Veja, não somos orçamentariamente superavitários, simplesmente contingenciamos e deixamos de executar despesas orçamentárias (leia-se investimentos). No site do BC encontramos gráficos da relação DPL X PIB mês a mês. Em Dezembro de 2002 Lula encontra essa relação no seu auge da série histórica, 60,4%. Hoje, com dados de Julho de 2014, o patamar é de 35,1%. Essa é a mágica. O Plano real estabilizou a inflação, mas não conseguiu que o cenário de maior capacidade de planejamento produzisse as condições do crescimento econômico. Ao contrário, empurrou o país para um terrível ciclo de restrição de investimentos, que só foi estancado com a “mudança” de plataforma macroeconômica. 

Eu vou para os fundamentos do Plano Real para observar mais de perto onde mudamos. O começo da saga do Plano Real começa com o debate brasileiro sobre o combate à inflação. Um momento rico para nossa ciência econômica, nos destacamos no mundo. Celso Furtado, Paul Singer, Teotônio dos Santos, e, um grupo de economistas que anos mais tarde ganhou o apelido de puquianos. No livro Inflação : gradualismo versus tratamento de choque (1970) Mário Henrique Simonsen e, do mesmo autor, A nova economia brasileira (1974) o regime inflacionário no país o problema inflacionário é discutido em detalhes. De Chico Lopes o livro Choque Heterodoxo, Combate à Inflação e Reforma Monetária, trata da questão da inércia econômica pontual (Teoria da Inércia na Inflação), como ação anti-inflacionária. É desse caldo de interpretações que aparece Pérsio Arida, que em artigo (Economic Stabilization in Brazil", Washington, Working Paper, 1984) inspirado no livro de Constantino Bresciani-Turroni (Economia da inflação: o fenômeno da hiperinflaçao Alemã nos anos 20) discutiu a teoria da sincronização dos preços relativos. Constantino mostrava que na hiperinflação havia uma tendência de sincronização dos preços relativos. A inovação de Pérsio Arida foi planejar um ambiente (uma moeda) que simulasse a sincronização desses preços relativos, sem necessariamente passar pela hiperinflação. Na prática foi o que fizeram com a URV. 

A idéia inicial (Plano LARIDA – Lara Resende e Pérsio Arida) era a de implementar alguns estágios de enfrentamento da inflação. As duas primeiras etapas do Plano Real, i)reforma monetária e ii)ajuste fiscal aconteceram mais naturalmente. A terceira fase, Ancoragem cambial e monetária não surtiu os efeitos desejados. A expectativa de maior estabilidade monetária não se verificava, daí a reação foi radicalizar a dependência do Brasil ao mercado externo. Mais vulnerabilidade da nossa economia, maior dificuldade do setor industrial. A Abertura econômica, por exemplo, era estimulada com medidas como a redução dos impostos de importação. Entre 1990 e 1995 a alíquota média simples caiu de 32,2% para 13,1%. A indústria brasileira não conseguia competir com isso. Luciano Coutinho em Estudo da competitividade da indústria brasileira (Campinas: Papirus; Editora da Unicamp, 1994) sumarizou que a combinação da intensificação do processo de abertura comercial com a sobrevalorização cambial produziu uma drástica redução no dinamismo das exportações brasileiras e perda de competitividade da produção doméstica. Segundo dados da SECEX o crescimento das importações (taxa geométrica anual de crescimento) saltaram de 12,4% (no período entre 1990 até 1994) para 27,1% (no período entre 1994 até 1996). Por sua vez, nos mesmos períodos, as exportações viram seu crescimento minguar, de 8,5% para 4,7%. No livro de Andre Modenesi Regimes Monetários : teoria e a experiência do Real fica muito claro o resumo da ópera: “(...) A conquista da estabilidade dos preços se deu a um elevado custo, materializado em desempenho econômico medíocre e drástica elevação da dívida pública (...)”. É bom dizer que o texto de Modenesi é um dos clássicos da teoria econômica no Brasil, profundo teoricamente e muito sistemático tecnicamente. Não foi pretensão do autor qualificar o Plano Real, ele fez um diagnóstico realmente agudo do plano (suas premissas, bases teóricas, resultados e desdobramentos). Um livro que é sim pancada no Plano Real, de cabo à rabo, é do Paraense Wladimir Pomar Brasil, crise internacional e projetos de sociedade (editado pela Perseu Abramo em 2013). 

Principalmente esse ajuste fiscal não se desenrolou com perdas equilibradas entre as rendas dos trabalhadores e as rendas financeiras. Os rentistas foram absolutamente poupados. O preço a pagar pelo aperto fiscal recaiu sobre os ombros dos assalariados e sobre o patrimônio público. Em resumo resumidíssimo, o ajuste se processou a fórceps: a)redução dos investimentos federais (gastos públicos); b)elevação da receita fiscal (elevação da relação carga tributária X PIB); c)redução das transferências não-constitucionais por parte do executivo federal e cobrança das dívidas dos entes federados junto ao tesouro nacional; d)fechamento dos bancos estaduais e federais (saneamento do sistema bancário); e)ampliação do PND – plano nacional de desestatização; f)criação do Fundo de Privatização -FSE- depois, Fundo de Estabilização Fiscal -FEF-. 

Chegado ao resumo, resumidíssimo, temos a concreta distinção entre a visão macroeconômica presente no Plano Real e a política econômica de Lula e Dilma. Ainda no governo FHC se processava uma espécie de disputa entre Monetaristas e Desenvolvimentistas. Um artigo pequeno, mas honesto, para explicar a diferença entre essas visões é do professor Pedro Fonseca com a professora Maria de Lourdes Mollo em Metalistas x papelistas: origens teóricas e antecedentes do debate entre monetaristas e desenvolvimentistas (Nova Economia. Belo Horizonte nº22 maio-agosto de 2012). No PSDB prosperou a visão mais conservadora, extremamente inspirada no ideário liberal nascido no Consenso de Washington e revalidado por novos liberais mais radicais como Friedrich Hayek (um primeiro texto de referência pode ser o traduzido O Caminho da Servidão). A vitória conservadora dentro do PSDB nos recoloca ao ponto onde o Plano Real não conseguiu avançar mesmo diante da bem sucedida estabilização inflacionária. Quer dizer, a recomposição do crescimento da economia e um processo de fortalecimento das bases cambiais do plano não se verificaram. Ao contrário, no final de seu segundo mandato FHC enfrentava seríssima crise na composição das reservas cambiais brasileiras, em frangalhos a essa altura, e forte pressão inflacionária. Como a liquidez de capital internacional já não era mais a mesma em função das sucessivas crises financeiras internacionais a saída habitual de gerar títulos para internalizar capital não surtia mais o efeito necessário. Lula, vitorioso, não rompe com as bases que fundam o Plano Real. Ao contrário, a reforma da previdência é exemplo concreto da gestão de transição entre o modelo mais fortemente monetarista (neste momento encarnado na figura do ex-presidente do BC, Armínio Fraga) e uma inflexão desenvolvimentista presente na equipe econômica de Lula. A dupla Palocci–Meirelles encarnava a combinação das políticas de forte protecionismo cambial e monetário articuladas com uma crescente valorização das instituições públicas de fomento à economia. 

Pouco a pouco a pauta foi se transformando: a)os investimentos federais cresceram; b)a receita fiscal se elevou não em função de novos impostos, mas como resultado da elevação da base tributária (mais empresas conseguiam sobreviver, produzir e pagar impostos); c)as transferências não-constitucionais por parte do executivo federal aumentaram e as dívidas dos entes federados junto ao tesouro nacional sistematicamente renegociadas; d)os bancos federais assumiram papel de forte indutor econômico; e)nenhuma privatização foi revista, mas o programa de desestatização foi interrompido. Na verdade, os governos do PT privatizam pelo processo de fatiamento. 

Essa mudança de perspectiva surtiu efeitos fundamentais. O BNDES passou, num intervalo muitíssimo pequeno, a assumir um papel crucial na formação da renda nacional (PIB). Na prática ocorreu o seguinte, cada empreendimento, do mais gigantesco ao mais modesto, contava com linhas de crédito do Banco. O efeito sobre o setor de serviços foi praticamente imediato. O deslocamento do fundamento monetarista, que desacelerava o crescimento e as demandas do mercado interno, deu espaço para a ocupação de uma nova política macroeconômica que apostou no dinamismo e na grandeza do mercado interno como alternativa à crise de liquidez externa. 

O fato é que Lula conviveu com o melhor dos dois mundos: i) o cenário internacional voltava a dar sinais de recuperação, e o Brasil ainda praticava atração de capitais de curto prazo (compradores de títulos do tesouro); ii)o mercado interno dava sinais de crescimento muito compatíveis com a capacidade da produção doméstica atender parte desse aquecimento. Vimos o Brasil seguir importando, mas vimos o setor de serviços crescendo intensamente, a indústria recuperar posições vendendo para o mercado interno e o setor agrícola quebrando recordes de safra, uma após a outra, graças ao aporte de crédito garantido pelos bancos públicos, sobretudo o Banco do Brasil. 

Daí que Lula inaugurou, bem à moda brasileira, uma espécie de miscigenação macunaímica entre monetarismo e desenvolvimentismo. A academia rotulou de “novo desenvolvimentismo” esse modelo. Não nos livramos do problema central, a forte dívida pública líquida. Mas, o fortalecimento do mercado interno livrou o país de um terrível cataclismo. Com FHC as crises financeiras internacionais (México, Rússia e Albânia principalmente) fizeram um estrago nas nossas contas públicas e pressionaram a inflação que não cedia aos patamares desejáveis pela equipe econômica tucana. Em 2008, no entanto, o mundo financeiro começou a virar geleia. Pouquíssimas vezes na história do capitalismo (economia de mercado na linguagem midiática) os Estados tiveram que intervir tanto no sistema financeiro. Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Japão estatizaram bancos. Isso mesmo, ou os tesouros públicos injetavam capital ou o sistema bancário virava pó de dólar. Imediatamente qualquer liquidez de capital foi dizimada, o comércio internacional foi fortemente abalado e as principais economias mundiais mergulharam em recessão. Algumas, agudas, como o Japão e a Alemanha. 

Duas bases principais seguraram o Brasil. i) a exportação de comodities e ii)o mercado consumidor interno. Com crise ou sem crise nossas principais comodities vendiam e o governo federal aportou recursos públicos para apoiar as exportações. Aumentou os investimentos em infraestrutura, ofereceu crédito e reduziu impostos sobre exportações. ii) o mercado interno tratou a crise financeira internacional como marola, e os brasileiros foram às compras. A política de valorização do salário mínimo, o crescimento da renda real dos salários, o crédito ao consumidor, o crédito para o setor de serviços (comércio, etc...) deixaram o mundo maravilhado. 

Ao contrário do que vivemos no governo tucano estávamos aproveitando a estabilidade de preços para avançar a renda nacional. FHC governou o país duas vezes, e mesmo assim não foi competente o suficiente para perceber as oportunidades de crescimento econômico que seu Plano Real poderia alavancar. Seguiu vítima do conservadorismo que tomou conta de seu partido e de seu governo. Não ousou apostar nos brasileiros. Atrelou a economia do país ao mercado financeiro internacional e foi obrigado a ver o FMI ditando regras de comportamento macroeconômico em seu governo. 

Daí que me parece frágil o discurso que afirma continuidade entre Lula e FHC. Igualmente frágil (e eu não acho ilegítimo, apenas aponto outro entendimento) o discurso que afirma que Lula herdou o Plano Real, e por isso pôde realizar as políticas sociais que lhe são marca indelével na história. 

Lula não se valeu do Real, Lula REINVENTOU o Real. 

Da forma como eu vejo, a articulação macunaímica entre monetarismo e desenvolvimentismo proporcionou ao Real ir muito além da mera estabilidade inflacionária. Experimentamos no país dois fenômenos muito positivos: i)crescimento econômico -mais forte ou mais fraco, não importa- e controle inflacionário -mais próximo ou mais distante do teto da meta- e ii)uma transição civilizatória, baseada sobretudo na mobilidade social ascendente de uma parcela gigantesca da população brasileira. 

Nunca esteve no horizonte do Plano Real fenômenos desta magnitude. Por isso me parece que os governos de Lula, e agora Dilma, reinventaram o Real. E, por isso, me parece que a disputa atual precisa ser analisada a partir daí. Da forma como consigo enxergar Aécio e sua candidatura não oferece sequer um avanço sobre essa reinvenção do Real levado à cabo por Lula, e gerida agora por Dilma. 

Mas, o contrário é verdade, quer dizer, Aécio e seus colaboradores estão impregnados do conservadorismo que impediu o seu grupo político fazer o Real transformar a vida das pessoas. Promover essa transformação geracional, baseada em fértil mobilidade social ascendente. Eu gosto da leitura de Gosta Spin-Andersen, que estuda o wellfare em todo lugar do mundo e identifica os modelos mais “desmercadorizadores”. Quer dizer, quando o desenvolvimento econômico e a ascensão social proporcionam mais cidadania, entregam mais dignidade, faz com que os indivíduos se sintam mais sujeitos sociais e menos coisas mercadológicas. Numa palavra, os indivíduos se desmercadorizam. Hoje, não há como enxergar de forma diferente, mesmo com todas as gravíssimas incongruências do governo petista, Dilma é uma opção que mais desmercadoriza as pessoas.

Peterson Leal Pacheco, sociólogo e professor universitário.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Por que ateu desperta a ira de religioso

Título original: Intolerância religiosa

Os religiosos não entendem como se pode discordar de sua cosmovisão

por Drauzio Varella para Folha

Sou ateu e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade - quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.