Por Peterson leal*
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| Não se trata apenas de um desmonte do PT mas de valores. |
Tenho tratado no meu Facebook da defesa de Lula. Meu argumento jamais foi a defesa de Lula por uma questão corporativa: "se direita ataca a esquerda tem que defender". Defendo, e defenderei Lula. Não um Lula abstrato, nem o fetichizado. Um Lula operário, pai dos pobres, nordestino “self-made man”. Defenderei Lula; tal qual ele é: paradoxal, complexo e limitado. E a defesa em favor de Lula, penso, significa mais uma das difíceis tarefas engendradas no bojo da luta de classes.
Não entendo o cenário político como uma ofensiva da oposição descontente com o resultado eleitoral de 2014. Não se trata, apenas, de um desmonte do PT e de suas lideranças. Quem compreende dessa forma não encontra qualquer motivação para defender Lula. Afinal, foi o próprio PT e suas lideranças que construíram o terreno onde se atolam. Em um bom texto Mauro Iasi comenta:
"(...)Assim, nos parece que a burguesia está disposta a se livrar de seu aliado, não por suas eventuais virtudes de um líder operário que um dia foi, mas pelo simples fato de que, tendo sido muito útil para operar uma democracia de cooptação fundada no apassivamento da classe trabalhadora, torna-se agora fonte de instabilidade que pode colocar em risco os interesses dominantes. E a burguesia vai usar todos os meios para tanto, fazendo uso inclusive daqueles instrumentos de seu Estado-classe que o PT julgava que fossem “republicanos” e que estariam a serviço desta abstração chamada “nação”.(...)".
Respeito, mas divirjo. A ofensiva conservadora é muito mais do que um ataque contra seu aliado estratégico. Fosse só isso o golpe viria simplesmente contra todas as idiossincrasias que estão presentes em Lula. É perfeitamente possível desmontar Lula exclusivamente se valendo das suas ações. Não haveria qualquer dificuldade em liquefazer o PT unicamente discursando suas contradições abismais. O próprio mandato de Dilma não resistiria à avalanche de lama praticada em seu seio.
Ocorre que junto do ataque ao Lula temos visto não o desmoronamento de uma liderança. A ofensiva é muito mais gigantesca. Aliás, mais importante que a desmontagem de Lula, Dilma e o PT enxergamos a burguesia usando todas as suas estruturas para inculcar VALORES que, se não construídos nos governos do PT certamente foram potencializados nos últimos anos.
A valorização da política geoestratégica SUL-SUL, o desenvolvimento regional, a valorização das políticas de assistência, a afirmação do talento e da força do povo mais pobre, a potência econômica das classes subalternizadas, o compromisso com o combate à fome e à vulnerabilidade... esses e outros tantos valores ganharam musculatura nesses 12-13 anos de governos do PT. E são esses valores; mais que Lula, Dilma ou o PT, que estão na mira da elite burguesa.
Um observador mais crítico pode defender que o próprio PT, e principalmente Dilma, no desespero pelo poder, flexibilizam – eles próprios – os tais valores fortalecidos à duras penas. Os exemplos do pré-sal, da retirada de orçamento para energias renováveis, veto à auditoria da dívida, retirada de direitos do seguro desemprego e alguns outros são muito evidentes. Mas, a despeito dessas evidências (talvez um aceno para a costura de um novo pacto apassivador) o capital político e simbólico acumulado por Lula lembra aos setores mais conservadores da elite brasileira que o risco de seguir oxigenando ainda mais valores empoderadores das classes subalternizadas.
Com isso, na verdade, quem tornou Lula um fetiche foi a burguesia. E inscreveu nesse fetiche marca indelevelmente negativa. Trata da derrubada de Lula como rito de passagem para um "Brasil melhor", sem a ameaça "comunista do PT". É muito mais que desmontar Lula, a tarefa é cessar a desmercadorização das pessoas.
A ação, pública e militante, contra os abusos desferidos à Lula é, antes de uma defesa ao próprio, uma tarefa configurada na luta de classes.
Mais uma vez, sem perder de vista as idiossincrasias de Lula, Dilma e PT. Não se trata das suas defesas, e sim da duríssima tarefa de enfrentar a luta de classes.
*Sociólogo e Prof. Universitário.

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