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domingo, 18 de dezembro de 2011

O jornalismo, esse desconhecido

ADVERTÊNCIA: o Ministério dos Posts Enormes adverte que o texto abaixo é enorme e pode causar sonolência, irritação e flatulência. Há ainda alguns efeitos colaterais não completamente documentados. A persistirem os sintomas, mude de canal.
A morte do Mosquito trouxe novamente à tona um assunto que circula faz tempo nas mesas de bar. Tanto dos botecos onde se reúnem jornalistas, quanto aqueles que abrigam gente de outras profissões que começa a entender as possibilidades da internet e dos aparelhinhos digitais de imagem e som. E, em certas rodas, até ganhou um nome sofisticado: “jornalismo cidadão”.
Trata-se do seguinte: coletar e distribuir informações é algo acessível a qualquer um. Não é preciso mais ter um jornal, ou emissoras de rádio e TV, com suas instalações caras e equipamentos importados, para distribuir “notícias”. Nem mesmo para ter uma grande audiência é necessário investir muito dinheiro.
Com uma câmera digital baratinha, um computador que custa uma fração do que custava há dez anos e um acesso quase gratuito à internet, qualquer um pode se estabelecer na “rede” como “jornalista”. Ou fofoqueiro. Ou candidato a celebridade.
Nesse cenário, a discussão sobre obrigatoriedade de diploma de curso superior para exercer o jornalismo fica meio sem sentido. Afinal, antes ou, vá lá, junto com o STF, o mundo real deu as condições para que qualquer um, em qualquer lugar, pudesse exercer o jornalismo.
Aí já ouço o pessoal se remexer nas cadeiras, inquieto. Mas é isso mesmo: não é mais o custo da tecnologia, do hardware, ou do software, que define o jornalismo. E jornalismo não é mais exclusividade de pessoas jurídicas (que o governo brasileiro insiste em tributar de montão). Uma pessoa física, na solidão de sua casa na Pedra Branca, ou numa mesa da Kibelândia, tem as mesmas condições de acesso e distribuição de informações que os empregados do Notícias do Dia, ou do Diário Catarinense.
Em alguns comentários post-mortem, surgiu a discussão sobre se o que o Mosquito fazia era jornalismo ou não. É interessante que a discussão mais antiga, sobre se alguém é jornalista (ou tem o direito de ser jornalista) foi ultrapassada pela questão mais recente: isso que está publicado é jornalismo ou não?
E afinal, o que é jornalismo?
Essa é uma daquelas perguntas curtinhas cuja resposta pode encher todas as páginas de um… jornal. Antigamente era fácil: jornalismo é a profissão daqueles que trabalham em jornais, agências de notícias e nos departamentos de jornalismo de rádios e TVs. Mas, como vimos, isso acabou. O que nos obriga a mergulhar um pouco mais fundo.
Jornalismo é a coleta e distribuição de informações. Mais precisamente, de notícias. Notícia é a informação inédita, recente, relevante. O cidadão que viu um acidente, fotografou ou filmou com seu celular e divulgou no tuíter ou no facebook, distribuiu uma informação, deu uma notícia ou melhor, como se diz no jargão, um “flash”. A informação preliminar, urgente, publicada às pressas. E, por isso, em geral incompleta.
Ele pode perfeitamente continuar no local, ampliando a informação. Se tiver um pouco de bom senso, souber se expressar e dominar meia dúzia de técnicas, poderá até prestar um serviço igual ou melhor que prestaria um jornalista “profissional”. E o conjunto de “posts” poderá conter uma notícia completa, bem contada e correta.
A meu ver, o fato do sujeito não ser jornalista ou de não exercer profissionalmente o jornalismo, não desmerece em nada seu relato.
O que compromete, complica e arruina qualquer notícia é sua inexatidão, a mistura de informação com opinião, os erros de linguagem e a falta de dados fundamentais. E notícias mal escritas, mal editadas ou maldosamente construídas, a gente tá arriscado a encontrar em qualquer lugar: no blog do amador deslumbrado ou nos veículos da “grande imprensa”.
E boa parte dos leitores (espero!) sabe distinguir um texto ruim de um texto bom. Voltando ao caso do Mosquito, tenho certeza que seus leitores sabiam separar a adjetivação da informação. E seu prestígio não se sustentava só no texto desbocado mas porque, no fundo de toda a indignação, o leitor percebia que havia ali alguma notícia relevante. Claro que havia também os malinos que se divertiam apenas com a lama, mas essa é outra história.
Portanto, torna-se cada vez mais irrelevante a formação de quem distribui a informação (ou cria conteúdo, como gostam de dizer alguns). Mas é cada vez mais importante saber a quem ou ao que serve aquela informação. E a quem interessa que ela seja divulgada daquela forma.
Vocês sabem que a coisa mais fácil do mundo é fazer uma coluna de notinhas ou encher páginas de jornal, ou metros e metros de blogs com “notícias”. Existem milhões de assessorias de imprensa ansiosas por publicar informações de seus assessorados. Montões de políticos e outras personalidades oferecem todos os dias toneladas de texto e imagens, tanto a seu próprio favor, quanto em desfavor de seus adversários. E as ”fontes” ligam para “todo mundo” sussurrando informações “exclusivas” que desejam ver publicadas.
Só que a melhor informação, a notícia mais “quente”, é aquela que alguém não gostaria de ver publicada. O que tentam esconder (principalmente se envolve dinheiro público), é que rende boas reportagens. E aí, o amador bem intencionado terá mais dificuldade.
Estão me acompanhando? Qualquer um pode coletar e divulgar informações. Mas se não estiver profissionalmente envolvido com esse mister e não tiver aprendido as técnicas necessárias para driblar os vendedores de facilidades, provavelmente vai acabar servindo de inocente útil. Laranja informativo, que publica o que lhe passaram achando que está prestando um serviço público e está apenas participando de um jogo sujo que ele não conhece e não domina.
Sim, sim, isso acontece com frequencia mesmo em ambientes “profissionais”. Muitos coleguinhas carecem de desconfiômetro e embarcam na fala mansa da “fonte”. Uns poucos (pelo menos torço para que sejam poucos) participam claramente do jogo de interesses e são premiados com agradinhos os mais variados.
A jovem sentada lá ao fundo levanta a mão e pergunta: “mas o Mosquito e tantos outros, ao divulgar denúncias passadas anonimamente, também não estão servindo de laranjas?” Claro. Mas este é o jogo dos blogs e veículos comprometidos com alguma causa. Tudo o que estiver de acordo com a causa, com a tese defendida ali, ganha acolhida e destaque. “Mas então o Mosquito não era independente?” Era no sentido de não ter ligações formais com empresas, pessoas ou entidades, mas a sua militância evidente, em defesa de uma causa, o colocava entre aqueles veículos que a gente precisava ler com certas precauções. E alguma cautela.
É bom para a democracia, para a vida em sociedade, para o avanço da cultura política, que todo tipo de informação circule. Mesmo aquelas empanadas em palavrões. Ou embutidas em adjetivos fortes. Não tenho saudade do tempo em que a única forma de se fazer circular informações alternativas era usar furtivamente o mimeógrafo da escola. As coisas melhoraram muito e essa facilidade que temos todos de nos expressar e tornar nossas palavras acessíveis ao mundo todo, é um avanço espetacular.
Só que agora, como antes, continuam existindo a fofoca, a conversa de mesa de bar, o anúncio alarmista, a calúnia pura e simples, a mentira, o aleivo e outras variantes. A informação confiável, em que a gente pode acreditar sistematicamente, que está na base dessa coisa complicada conhecida genericamente como jornalismo, era relativamente rara e ainda é. Mas assim como “todo mundo” está aprendendo a se expressar na internet, também está, espero, aprendendo a ver que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
OK, chega por hoje. Uma boa hora feliz de sexta e um fim de semana revigorante.

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