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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Jornal Nacional, William Bonner e Hommer Simpson


Figuras emblemáticas no telejornal do país

Telespectadores do Jornal Nacional, segundo Willian Bonner.

Por: Vinícius Magalhães

O Jornal Nacional é uma história de sucesso entre os telejornais brasileiros. Quando se compara sua audiência com a de programas semelhantes levados ao ar, o JN sobressai como um dos programas jornalísticos mais vistos. É claro que nos dias atuais ele não alcança números altíssimos como no início da década, em que a audiência chegava a 43 pontos, ou seja, 68% dos aparelhos sintonizados no programa. Naquela época um comercial de trinta segundos custava de 250.000 a 380.000 reais. Isso fazia com que a Globo contabilizasse 2,6 milhões a cada vez que seus apresentadores diziam "boa-noite". Essa arrecadação publicitária toda, e que hoje ainda existe, possibilita pagar um salário anual milionário ao apresentador William Bonner e mobilizar um exército de profissionais dedicados exclusivamente ao programa. Além de equipes espalhadas em centenas de filiais em todo território. Apesar de toda pompa que o Jornal Nacional tem, com suas cifras astronômicas, existe uma dependência muito grande por parte dele com as classes medianas e baixas, pois são elas que sintonizam no programa e garantem até hoje o forte poder que o JN tem. 
A questão da linguagem é por isso, levada muito em consideração, já que três em cada quatro espectadores do Jornal Nacional são de classe C, D ou E. Percebeu-se, através do levantamento feito pelo próprio jornal, que muitos espectadores não entendem perfeitamente o que é dito. Essa mesma pesquisa mostrou que o programa quase sempre é visto em família, e as famílias costumam ter um explicador – em geral o pai –, que é quem traduz para os demais o conteúdo das notícias mais complexas. Se o chefe de família não entende o significado das notícias, fica constrangido, e é possível que no dia seguinte prefira assistir a outro canal. Talvez seja por isso que o âncora William Bonner tenha descrito o telespectador de seu telejornal como Hommer Simpson, o personagem do desenho animado que é de classe mediana, adora tomar cerveja e tem raciocínio lento. 
Esse foi o relato de universitários e professores que em visita à redação do JN em 2005, puderam presenciar durante uma reunião de pauta, Bonner selecionando as matérias que, segundo ele, o ‘Hommer’ seria capaz de entender ou não. E essa maneira de fazer jornalismo parece cada vez mais comum na TV brasileira, em que a subjetividade, o sensacionalismo, a autopromoção e a vaidade do âncora são a receita certa para se transmitir um noticiário ao telespectador. 
Um exemplo bem recente seria a edição do Jornal Nacional do dia 28 de janeiro, no qual ao invés de utilizar o espaço do programa para informar devidamente sobre a tragédia na boate KISS – como se deve esperar de um jornalista-, William Bonner fez o contrário e optou por promover a si próprio e a sua equipe. Colocando ao ar o deslocamento deles de jatinho para São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre para cobrir tais acontecimentos, ou seja, apresentar os bastidores da notícia, que em nada agrega em uma reportagem que, naquele momento, abrangia todo território nacional, em pleno horário nobre. O fato da notícia em si, e o que é de interesse público foram, de repente, esquecidos. E, ao invés disso, preferiu-se utilizar a tragédia de centenas de pessoas como plataforma para o marketing institucional. 
Mas talvez seja isso mesmo. Televisão é antes de tudo imagem e se tratando de um jornal televisivo, quem tem o poder absoluto é o âncora. E o que sintetiza bem essa característica é o filme Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News), de 1987, escrito e dirigido por James L. Brooks e seu cocriador Matt Groening, desenhista de Os Simpsons, no qual incluímos Hommer, o assalariado mediano e de raciocínio lento. Descrito assim por William Bonner, como sendo esse o perfil de seus telespectadores. O mais interessante é o fato de o filme nos mostrar justamente a relação de poder e manipulação que os âncoras dos telejornais têm, retratado no filme pelo ator William Hurt. Seu personagem Tom Grunick é um apresentador de um telejornal narcisista e inescrupuloso, que manipula o aspecto patético do noticiário para ganhar audiência e, principalmente, prestígio profissional.
Em paralelo com a vida real, no Jornal Nacional, o mais assistido no país, não é difícil ver tais características; as escolhas editoriais duvidosas e a autopromoção por parte do âncora revelam isso. William Bonner, ao investir preciosos minutos mostrando que seus jornalistas e equipe se deslocaram de jatinho em busca de informação, deixa de lado o fator gerador daquilo, que é a notícia e o interesse público. Logo, equiparando-se ao filme, em que a relevância e integridade da notícia são substituídas por vaidades e desrespeito, baixando-se cada vez mais o nível do jornalismo, a ponto de se tornar comum vermos na ficção a representação da realidade. 

Referência: http://veja.abril.com.br/010904/p_100.html 
A referência é uma ótima matéria sobre o JN, mas fala sobre ela própria, então é bastante tendenciosa. Mas deu pra utilizar alguns dados.

4 comentários:

  1. Luís Filipe Pereira12 de abril de 2013 às 23:23

    Essa é apenas a ponta do iceberg. À medida que o Estado perde espaço para o mercado, nada mais importa além da satisfação do ser humano enquanto consumidor. A Comunicação é apenas mais uma área a sentir os efeitos dessa mudança. E quanto mais esse conceito ganha corpo, mais a escolha individual vai prevalecer sobre a coletiva.

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    1. devemos resistir a tomado do mercado pelo livre direito a informação. O Estado tem responsabilidade e nós jornalistas também.

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  2. Parabéns pelo texto, Vinícius Maragalhães.

    E obrigada professor Jorge, por divulgar o artigo para todos lerem!

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    1. Esse texto fez um grande sucesso, foram cerca 500 visualizações.... muito bom.

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obrigado pela sua opinião.