D. Felippe
Lembro-me muito bem daquele estranho país que visitei em um dos verões de minha vida. Ou inverno, depende muito do ponto de vista. Eles diziam que era verão, mas na verdade era inverno. Isso foi algo que tive que me acostumar vivendo com aquele povo. Tudo que eles dizem é o contrario do que é. Tudo que eles dizem que deve ser feito, eles não fazem. Todos os defeitos que criticam nos outros, carregam em si mesmos. Mas para eles tudo isso faz parte do dia a dia, do jeito de viver e ser de cada indivíduo.
As crianças enquanto pulavam na lama diziam umas para as outras que odiavam sujeira. Os adultos julgavam inconvenientes aqueles que furavam filas, porém na primeira oportunidade vinda do destino passavam na frente uns dos outros, formando o que parecia ser mais uma dança direcionada ou uma brincadeira do que propriamente uma fila. Os velhos declaravam que velho nenhum podia se acomodar com a velhice eminente, e todos os dias repetiam isso enquanto se espreguiçavam em suas redes e cadeiras de balanços nas varandas receptoras de brisas frescas e intensa calmaria. Por toda parte contradição era a palavra de lei.
O estranhamento causado em minha chegada foi imediato. Ao colocar os pés para fora do ônibus, que na verdade era um avião, logo de cara fui intimado por uma enxurrada de novidades contraditórias. Uma placa de piso molhado enfeitava o principal corredor de passagem de pedestres por onde eles aos montes espremiam-se, enquanto ao lado um corredor livre e seco se formava limpo e receptivo.
Os locais onde o proibido fumar estampavam as placas adversativas eram os mais nebulosamente dominados pela fumaça. Gritos, falatório exagerado, musica alta e diversos sons aleatórios e inconvenientes dominavam o concerto sonoro do ambiente, ignorando totalmente o recado na parede “Silencio Vale ouro”. “Que bando de pessoas mal educados” pensei eu.
Ao fazer meu check in a tão simpática atendente me sugeriu nunca frequentar a parte leste da cidade. Dias mais tardes quando perdido por ruas ao qual não conhecia, encontrei-me com a mesma, que sorridente gritou, “Então viesse ao leste. Te disse pra não vir, e vieste. Fico feliz!”
Na saída da rodoviária, que na verdade era um aeroporto, um homem falou-me “Com licença, não vou roubar seu táxi acenei com a cabeça. Ao levantar após recolher as bagagens do chão percebo que minha condução havia sumido, juntamente com o sujeito. “ TÁXI!” gritava eu, em pouco tempo alguém me repreende “Taxi se chama em um tom muito mais baixo por aqui!” ao dizer isto o sujeito dirige-se ao precipício da sarjeta e berra como se precisando ser ouvido em metade da cidade “ TÁXI! TÁXI!”
E assim meu primeiro dia em Hipocrisia foi cheios dessas estranhas situações. Saudações de boa noite durante o dia. Quase duas surras por pessoas trajando camisas da paz. Almoço carnívoro em um restaurante vegetariano. E por um momento pensei que todos estariam a fazer uma grande pegadinha coletiva comigo. Mas ao contrario do que pensas Ó meu amigo, minha adaptação não foi das mais difíceis. Pelo contrario, foi absurdamente fácil. Lá pelo quarto dia, lá estava eu praticando toda minha contradição e hipocrisia reprimida.
O segredo para se adaptar à Hipocrisia irei lhe contar agora.
Dizem os livros de historia que o primeiro presidente do país foi um tal de Hian Polius Cristian Iank, que criou todo o alicerce da nova cultura, politica e sociedade. Após sua morte batizaram o país em sua homenagem com a galhofa junção do começo de seus quatro nomes. HI de Hian, PO de Polius, CRIS de Cristian e IA de Iank. Surgia assim o “Império autoritário de Hipocrisia” que ao contrario do que sugeria o nome era uma republica democrática. Hian criou a chamada constituição “hipocrisiana”, que por incrível que parece se tratava realmente de uma constituição. Nela foi determinada que o hábito de ser hipócrita passaria agora a ser livre e discriminado. Achavam que ser hipócrita era ser sincero e inteligente. Que a pessoa mais qualificada para criticar um criminoso era o próprio criminoso. Que o melhor curandeiro é aquele que um dia foi curado.
Após sua morte a constituição foi alterada. Não necessariamente no papel, mas sim na ideia. De livre e discriminada, a hipocrisia passou a ser comum e com o tempo, obrigatória. Como isso aconteceu? Simples. A hipocrisia vicia. Poder fazer ações opostas ao que se prega é uma dadiva às pessoas afortunadas com ela. Quando livre e permitida a hipocrisia espalha-se mais rápido que qualquer vírus da natureza, e traz a vantagem da não mortalidade, ou não.
O segredo então para se adaptar à Hipocrisia é estar em Hipocrisia. Ter a permissão de ser o que se quer ser. De dizer o que quiser dizer. O problema é conseguir achar um limite. Hoje em dia Hipocrisia é uma terra em decadência, conhecida como a terra do contra. São poucos os conservadores que são contraditórios e hipócritas de menos.
Sei o que estás a pensar Ó meu amigo, “Que terra de loucos esta!”, mas pergunto-lhe agora, por que reprimir algo que está em nosso mais intimo desejo? Você reprimiria seu apetite? Sua necessidade sexual? Porque reprimir então a vontade quase natural do ser humano de se contradizer? Digo-lhe por que. Dizem os livros de historia que um sujeito qualquer uma vez tornou-se presidente de nosso país e que criou todo o alicerce da nova cultura, politica e sociedade. Sugeriu em nossa constituição que a hipocrisia a partir de agora fosse considerada errônea. Após sua morte a constituição foi alterada. Não necessariamente no papel, mas sim na ideia. De errada a hipocrisia passou a ser discriminada e proibida. Chegamos ao ponto que estamos hoje, uma terra certinha e careta em plena decadência de espirito. São inexistentes os rebeldes que são contraditórios e hipócritas de mais.
Sei o que estás a pensar Ó meu amigo, “Já ouvi essa historia antes”. A história se repete, muda-se o final, as circunstancias porem o conceito do inicio é basicamente o mesmo em todas as culturas.
Você que acha errado o modo de viver dos cidadãos “hipocrisianos”, seria o mais adaptável à sua sociedade. Porque no fundo somos todos cidadãos “hipocrisianos” esperando nosso passaporte para a terra prometida. Sinto uma imensa saudade do curto, mas intenso período que passei por aquela terra. Ao sair falei a mim mesmo que jamais retornaria a tão desagradável lugar! Que na verdade significa o oposto. Ou não, depende do ponto de vista.



Quem quiser conhecer o Direli, entra o perfil dele no facebook.
ResponderExcluirhttps://www.facebook.com/DirleiFelippe