Por: Peterson Leal Pacheco*
Morreu um dos homens mais importantes da história das lutas democráticas no país. Mas, eu em particular vejo terminar a vida do homem que tem extrema responsabilidade no processo de tomada de consciência que me fez comunista e marxista. Felizmente tive a oportunidade de dizê-lo em vida da sua responsabilidade. Eu ainda era uma criança, recém saído da roça e chegado em uma cidade industrial. O choque era imenso e a minha visão de mundo sofria colapsos diários com tudo o que via, sobretudo quando olhava (do alto do Monte Castelo) a imensa usina que insistia dar tapas na minha cara.
Como se não bastasse era greve, das maiores da história desse país. Eu nunca tinha visto greve, nem sabia o que era greve. Eu sabia o que era missa. E minha família foi para uma missa campal naquele dia. O calafrio começou quando, na rua, todas as famílias saíam de casa para se juntarem à multidão que caminhava. Carangola era minha metrópole, mas Carangola estava humilhada diante de tanta gente na rua. Naquela missa eu via muito mais pessoas do que em toda Carangola.
De missa eu entendia, dos cânticos à liturgia eucarística era comigo mesmo. Sempre gostei de cantar, não por acaso participava de todas as “coroações”, sobretudo depois que a minha professora Ana Maria Chedith notou que eu cantava alto e de peito estufado. Mas aquela missa, em Volta Redonda, naquele dia. Aquilo não era missa, poxa. Lá pelas tantas recebo um papel, de um moço que depois (meses depois) virou um companheiro. Era uma letra, sem mais, eu li. Letra estranha, sem Deus nem Jesus, nem louvação alguma. Eu fiquei incomodado lendo “de pé vítimas da fome”. Segui lendo. A letra não me causou nenhum sentimento santo. Só aquele incômodo mesmo.
Quando penso que não, da trupe de padres sobre o caminhão de som (que, diga-se, o caminhão era outra inovação incrível para meus olhos) destaca-se ele. A massa gritava seu nome. Dom Waldyr!!!!... Nunca tinha visto devoção assim dedicado ao sacerdote, se bobear é até pecado isso, pensei. Mas, o homem lá do alto fala meia dúzia de palavras. Eram palavras que torpedeavam as pessoas, ao meu lado muitas choravam. E tinha a coisa da tal greve, que ele dizia que era a luta dos trabalhadores. Termina a preleção e o homem lá do alto do caminhão do som puxa o coro. Aquela letra, aquela música, daquele papel. Os padres cantando e a massa no coro mais letal que minha consciência já experimentou. Milhares de vozes cantando, e eu lendo o hino da Internacional Comunista. Da mesma forma que eu choro aqui escrevendo, chorei lá no dia. Mas não fiquei só no choro, escarafunchei, com a ajuda do PROFESSOR (maiúscula aqui, por favor) Peninha (na época diretor do Getúlio Vargas). Sigo, por obra de Dom Waldyr escarafunchando até hoje. Parte do que sou devo a esse homem.
* Peterson Leal Pacheco, sociólogo e professor universitário.

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