Vale a pena pagar para ver TV?
Hoje
quem paga para ver TV no Brasil paga caro. Pesquisa realizada pela Ancine
(Agência Nacional de Cinema) constatou que os brasileiros desembolsam muito
mais pelo serviço de TV por assinatura do que os consumidores de outros seis
países latinos: Portugal, Espanha, Chile, Argentina, Peru e Equador.
Por Laurindo Lalo Leal Filho
Quanto
custa o clic no Brasil?
Houve tempo em que
identificávamos os canais de TV pelos números. “O programa passou no 4 ou no 7?
Ou será que foi no 2”. Não era assim? Os canais iam do 2 ao 13 que, com os
intervalos entre um e outro, somavam sete nas grandes cidades. Ninguém, àquela
altura, poderia imaginar que existiriam um dia canais 127 ou 519. Ainda por
cima pagos.
Hoje pagar para ver TV não é
mais novidade. Até fevereiro deste ano mais de 13 milhões de brasileiros já
faziam isso, número que deve dobrar em cinco anos. Melhor distribuição de
renda e uma possível, mas ainda não confirmada redução no preço dos pacotes
oferecidos, podem explicar esse crescimento.
Hoje quem paga para ver TV no Brasil paga caro. Pesquisa realizada pela Ancine
(Agência Nacional de Cinema) constatou que os brasileiros desembolsam muito
mais pelo serviço de TV por assinatura do que os consumidores de outros seis
países latinos: Portugal, Espanha, Chile, Argentina, Peru e Equador.
O preço máximo de um canal
de TV paga no Brasil era de R$ 3,74 no final de fevereiro, duzentos por cento
mais caro do que o valor máximo cobrado na Espanha (R$ 1,83). O preço mínimo de
um canal no Brasil é de R$ 1,74. No Peru de 56 centavos de Real.
Na Argentina, o pacote da
DirecTV com 97 canais custa R$ 83,52 mensais, enquanto o da Tvfuego, com 74
canais, R$ 65,10. No começo de março a Net cobrava no Rio de Janeiro R$ 69,90
por um pacote de 30 canais e a Sky R$ 74,90 por 40 canais.
Mas não só isso que os
brasileiros pagam. O serviço é cobrado duas vezes já que além do pagamento
mensal, os assinantes são obrigados a ver muita propaganda, paga pelo
telespectador e embutida nos preços dos produtos ou serviços anunciados.
Durante anos o mercado da TV
por assinatura no Brasil foi ocupado por um duopólio: a Net no cabo e a Sky via
satélite. Dividiram um bolo publicitário em expansão que, segundo a ABTA
(Associação Brasileira de TV por Assinatura) cresceu 20% nos dois últimos anos
passando de 1 bilhão em 2010 para R$ 1,2 bilhão em 2011.
À essa receita, juntam-se
além da assinatura paga pelo telespectador, os valores cobrados de canais
religiosos e de vendas para serem incluídos nos pacotes das operadoras. Tanto
dinheiro não corresponde à qualidade do serviço oferecido.
Assinantes queixam-se da
repetição constante dos filmes exibidos, do tempo destinado aos anúncios, dos
canais incluídos nos pacotes e que não lhes interessam, para não falar da
cobrança extra (o “pay-per-view”) exigida pela exibição de determinados jogos
de futebol.
Pesquisas confirmam essa
insatisfação. Até o ano passado as emissoras com maior audiência na TV paga
eram aquelas com sinal aberto: Globo, vista por 37% dos assinantes, Record
(11%), SBT (6,4%) e Bandeirantes (3,7%). Só no quinto lugar aparecia uma TV
fechada, a Discovery Kids, com 3,1%, seguida da SportTV com 2,6%.
Como se vê, não são as
programações exclusivas da TV paga que levam muita gente a ter televisão por
assinatura. A razão está na qualidade do sinal oferecido, livre de chuviscos e
interferências comuns em regiões montanhosas e nos grandes centros urbanos,
cada vez mais ocupados por altos edifícios. Para grande parte do público, a TV
por assinatura serve apenas para substituir a antena convencional.
Com a nova lei da TV paga o
conteúdo tende a melhorar um pouco já que os canais deverão reservar um espaço,
ainda pequeno, para produções nacionais. Elas substituirão parte dos velhos e
repetidos enlatados impostos pelas operadoras ao púbico.
Mas, por outro lado,
consolidará uma da práticas mais criticadas pelos assinantes: a veiculação de
publicidade, estabelecida agora em um limite de até 25% do total da
programação. Com isso o pagamento duplo torna-se lei.
Distorção a ser corrigida por um novo marco regulatório para a comunicação, há tanto tempo esperado no Brasil, capaz de garantir também ao consumidor o direito de montar o pacote de canais que lhe interessa, livrando-o das programações impostas arbitrariamente pelas operadoras.
Distorção a ser corrigida por um novo marco regulatório para a comunicação, há tanto tempo esperado no Brasil, capaz de garantir também ao consumidor o direito de montar o pacote de canais que lhe interessa, livrando-o das programações impostas arbitrariamente pelas operadoras.
Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho. Artigo publicado originalmente na Revista do Brasil, edição de maio/2012.
Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=183120&id_secao=6

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